sábado, 2 de novembro de 2013

O silêncio do cemitério

Há uma diferença, do ponto de vista etimológico, entre necrópole e cemitério.

Ambas são palavras que vêm do grego, mas com inspirações contrárias. Necrópole é a "cidade dos mortos", de nekrós ("morto", "cadáver"), pólis ("cidade"). A Necrópole de Gizé, no Egito, é um dos maiores exemplos da antiga arquitetura a serviço de um projeto post-mortem.

Para esta cidade se dirigiam o rei-defunto, a rainha e os sacerdotes do reino. A morte é uma viagem sem volta, e o faraó se preparava para essa jornada com imensa preocupação. Após a morte, deveria continuar reinando, mas agora sobre os demais mortos.

 
Já o cemitério possui uma outra conotação. O elemento "-tério" é um pospositivo do grego que se refere ao local onde se realiza o que é expresso pelo antepositivo. O monastério é o lugar onde ficam os monges. O presbitério é o lugar onde ficam os anciãos (os presbíteros). E o cemitério é o lugar onde as pessoas dormem, porque o antepositivo do grego koimétêrion ("lugar para dormir") é o verbo koiman ("dormir").

A palavra começou a ser usada pelos primeiros cristãos, que viam na morte um momento de descanso. Os mortos vão dormir, na esperança de saírem do túmulo. Preparam-se para acordar, tal como Jesus ressuscitado. O cemitério é lugar passageiro, silencioso, um dormitório para uma noite mais ou menos longa: o novo dia está por vir.

Um comentário:

Alexei disse...

Maravilhosa explicação. De fato, os cristão viam na morte a ocasião em se esperava o despertar, estar de pé novamente. Creio que deve-se juntar-se a essa explanação também as origens da palavra ressurreição.
Parabéns pela clareza!