sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E próspero ano-novo...

Desejamos a todos que o ano que vem seja próspero. Que possamos usufruir de circunstâncias favoráveis em várias dimensões da vida: família, saúde, emprego...

A palavra remete ao adjetivo latino prosper, "feliz", "que corre bem". E guarda, nas entreletras, um segredo. Ao analisar prosper, descobrimos que o prefixo pro está associado a spere, que por sua vez reporta a spes, "esperança".

Quando você desejar um próspero ano para alguém, lembre-se: a esperança é o que nos faz caminhar!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Presépio etimológico


Presépio no Conjunto Nacional (SP), dezembro de 2010.
Não há Natal sem presépio. A palavra "presépio" vem do latim praesepe, cujo significado básico é "estábulo", "curral", "redil". Está composta pelo prefixo prae = "diante", e do substantivo saepes = "lugar fechado" (e daí a nossa palavra "sebe").

Houve uma confusão conceitual entre o lugar onde os animais ficavam e o tabuleiro em que se depositava a comida para eles se alimentarem. Daí que presépio signifique o estábulo e, em ponto menor, a manjedoura. O texto bíblico admite essa dualidade.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Onde você vai passar o Réveillon?

Estamos próximos de 2011, e já se ouve a pergunta típica: "onde você vai passar o Réveillon?".

Ainda não se criou em nosso idioma termo específico para designar os festejos em preparação para a chegada do Ano-Novo. E a palavra francesa também não foi plenamente aportuguesada. A pergunta equivalente "onde você vai passar o Ano-Novo?" convive com a outra em igualdade de condições.

É que "réveillon" (muitos já escrevem "reveillon", sem acento) está bem arraigado entre nós. Talvez daqui a algumas décadas a grafia se torne "reveiom" (a exemplo de "creiom" a partir do francês crayon)...
Até lá... qual a origem de "réveillon"?

Do francês réveiller, "acordar". A tradição era a família ficar acordada na passagem para o novo ano, mas sobretudo na noite de Natal, em espírito de vigília e oração. O Réveillon de Noël — a ceia de Natal, entre familiares e amigos — era até mais importante do que o do dia 31 de dezembro.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Receita de panetone

Uma lenda, com várias versões, sobre a receita do panetone...

Na Idade Média, em Milão, havia um pobre ajudante de padeiro chamado Toni. Jovem ainda, trabalhava horas a fio para sustentar a família e cuidar de sua mãe, viúva e doente. Passava noites em claro produzindo pães e durante o dia se desdobrava como filho zeloso e irmão mais velho de três crianças.

Às vésperas do Natal, seu patrão lhe encomendou, além dos pães, uma torta para a festa que se aproximava. Um cliente muito importante tinha feito o pedido. Exausto, porém, Toni se atrapalhou e acabou derrubando na vasilha onde descansava a massa do pão as uvas passas que estavam destinadas para a torta. Em desespero, jogou na massa já estragada as frutas cristalizadas, a manteiga, os ovos e outros ingredientes que seriam usados para a torta. Assou a mistura e voltou para a casa. Estava certo de que depois do Natal seria demitido.
Na manhã seguinte, contudo, ao chegar ao trabalho, Toni foi surpreendido por um abraço do patrão que vinha felicitá-lo pelo maravilhoso pão que, em lugar da torta, dera um brilho único à festa de Natal do cliente:

— Não sei que receita você criou, mas a partir de hoje vamos chamar este pão de pane di Toni!

Nascia o panettone. E o padeiro convidou o rapaz para ser seu sócio. E meses depois Toni se casou com a bela filha do padeiro. E a mãe de Toni ficou curada e, conversa vai, conversa vem... se casou com o padeiro, que também era viúvo. E todos viveram felizes para sempre!
A história é ótima, mas entra no capítulo da etimologia popular. A palavra "panetone" provavelmente veio do milanês panattón, aumentativo de pan, significando "pão grande", "pão de luxo", em virtude dos ingredientes que o enriquecem.
Deonísio da Silva, em seu livro A vida íntima das palavras, refere-se à expressão pane tonico, um "pão fortificante".

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A onda da abundância

A etimologia provoca surpresas. O que estava coberto é des... coberto. Quem imaginaria que "abundância" tem alguma relação com a palavra "onda"? Pois tem!

No latim, abundare significava "transbordar". E estava formado pelo prefixo ab ("fora") e pelo verbo undare ("fluir", "ondular"), que por sua vez remete a unda ("onda"). As águas ondulam e transbordam em abundância...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A etimologia do malandro

Há dúvidas sobre a origem da palavra "malandro", o que não causa estranheza, porque malandro tem lábia, é maroto, não se deixa pegar tão facilmente.

Uma hipótese para significar o sujeito de comportamento duvidoso é a de que a palavra vem de um casamento estranho entre o latim malus ("mau", "errado") e o provençal landrin ("preguiçoso", "vagabundo").

Outra possibilidade tem a ver com Dom Quixote. No livro de Cervantes (século XVII), aparece a palavra malandrín, com o sentido de "patife". Teria vindo do italiano malandrino, significando, na origem, quem era vítima de uma espécie de lepra, denonimada em latim vulgar *malandria. Esta palavra, por sua vez, remete ao grego mélas ("negro"), por causa da cor escura da pele do leproso. Na Itália, os ladrões acabariam sendo chamados assim também. O motivo da ligação estaria em que ambos não trabalham, mas os ladrões recorrem ao roubo e não à mendicância.

Antenor Nascentes registra uma outra ideia, defendida por João Ribeiro. A palavra teria a ver com "malandra", ferida ou sarna que ataca as juntas internas dos joelhos dos cavalos e outras cavalgaduras. Provindo do francês malandre (séculos XV-XVI). Esta sarna atrapalha o andar dos animais. E este "mal andar", teria a ver com a malandragem, a vagabundagem, o andar por aí, de mau jeito.
No Brasil, a palavra "malandro" ganhou conotação menos agressiva. O malandro carioca, por exemplo, é o esperto. Lança mão de vários expedientes para sobreviver, com um toque de graça, irreverência e sensualidade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

WikiLeaks, vazamentos que esvaziam

A palavra "vazamento" tem ligações perigosas com o vazio. No latim, vacivus é o que está desprovido. Na Idade Média, tínhamos um provável *vaziar. Que será o nosso "esvaziar".

Os vazamentos assustam, sobretudo quando se trata de algo que pode encher a humanidade de vergonha... Algo que não deveria circular por aí, mas que, ao circular, esclarece muita coisa!

Quando algo assim vaza... surge o vazio. Desde sempre sabemos — o ser humano tem medo do vazio. Mas para algum lugar vai aquilo que vazou. Há uma troca, vamos dizer assim. Se eu estava vazio de informações, agora estou repleto. O que antes era cheio, agora está cheio de nada...

WikiLeaks é uma organização que rompe muros e paredes, promove vazamentos espetaculares de documentos, vídeos, segredos. No inglês, a palavra leak remete ao germânico lechzen ("ressecar", "produzir sede"). O sentido de "tornar conhecido algo sigiloso" data do início do século XIX.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A vez das fezes

De onde vem a palavra "fezes"?, perguntou um leitor deste blog.

Certa vez um professor me afirmou, abusando da ironia, que "fezes" vinha do verbo latino facere, "fazer". Defecar seria o fazer mais próprio do humano...

Provém, sim, do latim, mas do substantivo faex, que designava a borra do vinho (depositada nos recipientes após a fermentação), e o resíduo que se separa dos metais durante a fusão.
Por extensão, passou a indicar o desprezível, o impuro, o asqueroso. Os excrementos foram incluídos neste rol.

Daí também a antiga expressão pejorativa populi faex, com que os romanos "superiores" indicavam a escória da sociedade.

Quando alguém diz com grosseria que um filme é uma merda, ou que alguém é um bosta, retoma essa ideia: o filme não presta, aquela pessoa é detestável, repugnante.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A inveja não vê

Um leitor quer saber a origem etimológica de "inveja".

No latim, invidia relaciona-se com a noção de "ver" (videre). O prefixo in associado à visão invejosa, que não desgruda dos bens alheios, mostra o quanto há de recusa e de ódio nesse olhar.

Não é à toa que se fala em "olho gordo", porque doentes e deformados estão os olhos de quem não se admira positivamente com o que dá alegria aos outros.

Dante, na Divina comédia, apresenta os invejosos no Purgatório, com os olhos costurados. Quem, durante a vida, não soube apreciar o bom e o belo com abertura de coração, depois da morte não conseguirá enxergar nada.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sim, é um cachimbo!

A palavra "cachimbo" é intrigante. Uma das várias hipóteses para sua origem remete ao guarani caatimbó — fumaça (timbó) que vem de erva (caá) queimada.

Dizem alguns estudiosos, no entanto, que devemos pensar em ka jingu, de origem africana. Nas línguas da família banta, este ka é um prefixo diminutivo, e jingu uma espécie de cachimbo.

Ou ainda, como afirma Nei Lopes, no Novo dicionário banto do Brasil, terá suas raízes no quimbundo kuxiba, "chupar".

"Cachimbo" desconcerta os etimólogos porque o mesmo aparelho para fumar, em outros idiomas, soa diferente. Em francês, é pipe. Em espanhol, pipa. Em finlandês, piippu. Em inglês, pipe. Em italiano, pipa. Em alemão, Pfeife. Em holandês, pijp. Em irlandês, píopa. E todos procedem de *pipa, do latim vulgar, em conexão com o verbo latino pipare, "chiar". A alusão ao chiado tem a ver com o ruído que se faz nas cachimbadas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A etimologia que entrou em parafuso

A etimologia não é uma ciência exata, e por vezes os caçadores de palavras entram em parafuso! A palavra "parafuso", por exemplo, não tem uma história muito clara, o que não impede especulações e hipóteses em torno de objeto tão importante para a construção de uma sociedade!

O linguista Rosário F. Mansur Guérios se refere à expressão latina medieval *pare fusu, "fuso parelho", assemelhado ao fuso de fiar.

Outra possibilidade, de difícil confirmação, é que, proveniente do espanhol parahuso, o termo nesse idioma tenha nascido da tradução/adaptação da palavra alemã Bohreisen, formada por bohren, "furar", e eisen, "ferro". O pequeno ferro que fura. Uma hipótese que não é fácil atarraxar!



No século XIX, surgiu a expressão "ter um parafuso a menos (na cabeça)", indicando que alguém, por apresentar comportamento estranho e inconveniente, estaria com doença mental grave, ou simplesmente desorientado. Certamente uma comparação entre máquinas que não funcionam bem e seres humanos atrapalhados.

Entra em parafuso quem se sente perdido, naquela arriscada manobra em que o avião perde altura e desce, rodopiando, como se fosse esborrachar-se no solo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Eis um bando de bandidos!

Já li em alguns textos a expressão "bando de bandidos". Temos aqui uma redundância? O que os bandidos têm a ver com "bando"? Todo bando é formado por bandidos, ao menos do ponto de vista etimológico?

Os godos no início da era cristã designavam com a palavra *bandwa o emblema que identificasse um grupo, a bandeira, o estandarte, a insígnia. Em típica inversão, o termo acabou por designar o próprio grupo, a própria facção representada. A palavra é assumida pelo latim medieval bandum. No provençal, banda era "corpo de tropa", "partido", "lado".

A palavra "bando" pode referir-se a um ajuntamento de pessoas pura e simplesmente. Ou de animais. Ou a um bando de criminosos e de bandidos.

"Bandido" remete ao italiano antigo bandetto, aquele que foi banido da sociedade, em consonância com o verbo bandire, "banir", "exilar", "proscrever". Este verbo está unido ao verbo gótico (sim, voltamos ao gótico!) *bandwjan, "assinalar".

O bandido é expulso, mas para isso tem de ser assinalado; que todos vejam como o bandalheiro deve ser excluído da comunidade.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O que faz alguma coisa ser fascinante?

Um leitor do blog pergunta de onde vem a palavra "fascinante".

Voltemo-nos para o latim fascinantis. Quem está experimentando um fascínio sente-se fortemente atraído por uma visão. Está enfeitiçado, seduzido por palavras encantatórias.

Uma pessoa fascinante deixa seus admiradores em estado de espanto. Ficar embasbacado é sofrer a ação do que fascina. Extasiados perante o que fascina, abrimos a boca e perdemos a fala.
No latim também havia fascinus, amuleto com poderes mágicos. Uma forma de manter o outro sob o domínio da magia é paralisá-lo. O amuleto também "congela" aqueles que pretendem fazer o mal.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Todo exame é exigente

Todo exame é exigente. Tanto o exame de sangue como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) pedem que a pessoa dê um pouco do próprio sangue.

A palavra "exame" está vinculada ao latim exigere, vocábulo composto de ex mais agere. A exigência do exame, portanto, é uma ação que, vinda de fora e/ou de dentro, nos obriga a superar-nos, a sair de nós mesmos, a dar o melhor de nós.

Há vários significados para os dois verbos examinare e exigere — "exigir", "examinar", "analisar", "fazer cumprir", "medir", "apreciar", "julgar" e até... "torturar".

O sentido de exame como teste especificamente voltado para aferir o grau de conhecimento de uma pessoa começa a se impor a partir do século XVII.

domingo, 7 de novembro de 2010

Famosos pra cachorro!

Muitos animais fizeram sucesso no cinema e na TV. Os cachorros estão entre os atores mais famosos, como Lassie,  Rin Tin Tin, Beethoven e, mais recentemente, Marley.


No latim vulgar supõe-se que havia a forma *cattulus, da qual teria vindo o nosso "cachorro". Antes, no latim clássico, catulus significava, genericamente, o filhote de um animal. Com o tempo, associou-se ao filhote do cão e ao próprio cão, dentre todos os quadrúpedes o companheiro mais próximo do ser humano.

O cachorro seria, então, o filhote por excelência, e, por uma dessas peças que o pensamento confundente nos prega, a cria e o filhote do próprio ser humano!

sábado, 6 de novembro de 2010

Para lá de caxangá

Um leitor deste blog perguntou pela origem de "caxangá", possivelmente lembrando a canção Escravos de Jó. Ou talvez a música Caxangá de autoria de Milton Nascimento e Fernando Brant, que Elis Regina interpretava brilhantemente.


A palavra "caxangá" possui vários significados.

Pode ser o gorro branco dos marinheiros, em tecido de algodão, as abas para cima. Ou um crustáceo, um tipo de siri, o Callinectes larvatus. Ou adereço usado pelas mulheres do estado de Alagoas.

Existem inclusive registros na música brasileira sobre um certo repentista mineiro que se chamava Caxangá.

A verdade é que não se sabe por que gorro, siri, adereço e cantor receberam esse nome. Não há como associá-los a alguma história etimológica.

O etimólogo José Pedro Machado limita-se a dizer que a palavra vem do tupi caá-çangá, indicando como fonte o Dicionário Tupi-Guarani-Português, de Francisco da Silveira Bueno. A palavra significava "mata extensa".

No Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena, de Clóvis Chiaradia, extensa é a lista das acepções: siripuã, gorro de marinheiro, adereços para mulheres, brinquedo infantil cantado, vila de um município no Espírito Santo, um bairro de Recife, um povoado no Pará, nome de um igarapé no Amazonas, um córrego em Macaé (RJ), uma localidade em Sergipe, outra em Pernambuco...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

De presidente para presidenta

Decisões políticas estão unidas a decisões linguísticas. Se a recém-eleita presidenta Dilma Rousseff quiser enfatizar que pela primeira vez uma mulher foi escolhida para esta função no Brasil, preferirá o substantivo feminino em lugar do artigo apenas, "a presidente".

A palavra remete ao latim praesidere, "estar em primeiro lugar", "governar", "administrar". Mais literalmente, significava sentar-se (sedere) diante (prae) de outras pessoas, para dirigir-lhes a palavra em situação de destaque e liderança.

A partir do século XVIII, em inglês (president) e em outros idiomas, assumiu o sentido de principal líder numa república.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Lamber, beber e falar

O leitor Marcos (RJ) uma vez mais nos oferece a oportunidade de ampliar este blog. Diz ele: "'Poeta é um ente que lambe as palavras' (Manoel de Barros). O etimologista também lambe as palavras, não é mesmo? (...) Qual a etimologia de 'lamber'?"

Marcos, "lamber" nos remete ao verbo latino lambere, "passar a língua sobre". Em outros momentos, "lamber" também se associou ao ato de beber. No antigo francês, havia uma expressão típica dos estudantes enquanto se dirigiam à taberna: — Lampons! Que podemos traduzir por um animado "Vamos beber!" ou, mais livremente: "Línguas na bebida!".

Aquele grito de guerra dos estudantes medievais ligava-se também à ideia de que, bebendo, suas línguas ficariam soltas, em sintonia com o proverbial in vino veritas!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A invasão das mentes

De uns 10 anos para cá, as livrarias assistiram à chegada de vários títulos com a palavra "mente" em destaque:
Mentes roubadas, fechadas, femininas, interligadas, inquietas, brilhantes e treinadas, que mudam e criam manias, vêm e invadem as nossas próprias mentes.

A palavra "mente" provém do latim mens, "razão", "inteligência", mas é interessante mostrar sua íntima ligação com outras duas palavras latinas, memini, "lembrar-se", e mentio, "menção".

A mente relaciona-se, portanto, com a memória e com nossa capacidade de propor, de dar a conhecer. A palavra "comentar" também quer aparecer por aqui, significando aquilo que se diz ou se escreve quando (ou enquanto) outro alguém menciona algo.

Existe o verbo "mentar", reunindo as três facetas: trazer à mente (recordar), fazer menção e criar algo na mente, arquitetar, bolar.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Etimologia na balança... ou na corda bamba

Cecilia Cavalheiro, leitora assídua deste blog, pergunta: "você poderia dar o significado de Equilíbrio?"

A palavra procede do latim aequilibrìum, formada por aequus, "igual", "idêntico", e libra, "balança". Num jogo de futebol equilibrado nenhum dos times se sobressai. O gol é um desequilíbrio que leva uma das torcidas ao êxtase... e a outra, ao desespero.

O equilibrista é aquele que, dançando e balançando, se mantém no equilíbrio desequilibrado, retrato da vida humana.

sábado, 16 de outubro de 2010

Sexo e masturbação

Perguntaram-me pelo formspring sobre a origem etimológica de "sexo" e "masturbação".

No livro Palavras e origens, explico que "sexo" remete-nos ao verbo latino secare ("cortar", "dividir", "separar"), indicando a separação entre homens e mulheres.
Quanto à "masturbação", uma hipótese (considerada por muitos autores como fruto de masturbação mental...) é que provenha de *manstuprare (do latim vulgar), composta por manu ("mão") + stuprare ("deflorar", "forçar", "desonrar").

A etimologia, neste caso, seria tão abusiva quanto a própria ação de estimular manualmente o órgão genital.

No antigo latim, havia várias alusões humorísticas à masturbação. Uma delas referia-se à mão de quem se masturbava como amica manus ("a mão amiga"), especificamente a esquerda, pois a mão direita era dedicada a tarefas mais nobres.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Forró dos enfezados

Mais um leitor se manifesta e pergunta: "Olá! Eu estou adorando ler o seu livro e seu blog. Nas considerações iniciais do livro, você cita dois exemplos de 'etimologia popular', com significados falsos: 'enfezado' e 'forró'. Eu já escutei essas duas versões e fiquei curioso para saber a real origem."

É pura fantasia, mas incrivelmente muito difundida, a atribuição de "forró" ao inglês "for all" ("para todos"), enfatizando que seria uma festa do povo, sem discriminações de nenhum tipo.

O certo, porém, é que provém do termo africano "forrobodó". O estudioso Nei Lopes, em seu Novo dicionário banto do Brasil, informa que se trata de hibridismo banto-português, com o significado de "confusão", "farra", ganhando o sentido de "festa animada".


Equivocadamente, costuma-se dizer que "enfezado" é aquele que está cheio de fezes e, portanto, anda irritado, zangado, de cara amarrada.

A autêntica etimologia da palavra é outra. Não tem nada a ver com intestino preso. A palavra deriva do latim infensatum, referente a uma atitude de hostilidade defensiva. O enfezado está no seu canto, encolhido de medo, assustado, mas fazendo aquela cara feia, para defender-se, com raiva (mas no fundo é fragilidade...), respondendo sempre com rispidez, ameaçando agredir o primeiro que se aproxime.
Uma excelente oportunidade para o enfezado se soltar, e ganhar coragem para conviver melhor... é cair no forró!

domingo, 10 de outubro de 2010

Vamos de Balaio de Dois?

O Balaio de Dois (com Paulo Netho e Salatiel Silva) é uma ótima opção de divertimento para crianças e adultos que queiram comemorar a poesia e a música nos próximos dias (ver mais abaixo). Um momento deles...


E de onde vem a palavra "balaio", o cesto?

Não se sabe ao certo. Uma boa possibilidade, porém, é que provenha do latim medieval *balagiu, palha recolhida em cesto, a partir do latim palea, "palha". Por metonímia, o conteúdo passou a denominar o continente.

Dica: Balaio de Dois nos dias 10, 16, 17 e 30 de outubro, às 14h30. Entrada franca - Sala de leitura infanto-juvenil da Biblioteca Sérgio Milliet - Centro Cultural São Paulo. (Com intérprete de Libras no dia 30 de outubro.)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O inferno nos dentes

Escreve um leitor: "Lendo a explicação sobre a palavra 'tartaruga', pergunto sobre a palavra 'tártaro', com significado de calcificação da placa bacteriana sobre os dentes."

Caro leitor, um dos significados para "tártaro", como registram os dicionários, é a substância espessa originária do suco de uva, encontrada também nas paredes dos barris de vinho. Por analogia, indica qualquer tipo de crosta ou sedimento.

No caso do tártaro dentário (odontolitíase), é um depósito duro, esbranquiçado, que surge sob as gengivas ou na borda dos dentes, formado basicamente de fosfato de cálcio, partículas de alimentos e bactérias.

Voltamos ao grego tartaros, pelo latim medieval tartarum. A dureza da incrustação é o que justifica a referência ao mundo inferior ("infernal"), rochoso, das profundezas, tartáreo. O sentido odontológico, baseado na analogia que expliquei acima, começou a ser registrado no início do século XIX.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A tartaruga herética, musical e virtuosa

Um leitor pergunta sobre a origem da palavra "tartaruga".

Os antigos olhavam com pouca benevolência para a tartaruga. Viam nela algo de tortuoso, de assustador. No grego, tartaroukhos significava aquele ser que habita o Tártaro, o mundo inferior, os infernos.

Do latim medieval *tortuca evoluiu-se para tortue, no antigo francês. Que tortos caminhos são os da tartaruga? Um animal que vem do submundo, e carrega sobre as costas um vestígio desse lugar tenebroso! Sua lentidão inspirava ideias de heresia.

Lembremos, porém, que existia entre os latinos um tipo de lira formado pelo casco da tartaruga. E modernamente, em certas histórias, a tartaruga aparece como símbolo de virtudes como a paciência e a persistência.

domingo, 3 de outubro de 2010

O voto é sagrado

Um leitor (eleitor!) perguntou-me hoje a origem do verbo "votar".

Tínhamos no latim vulgar *votare, que procedeu de vovere, "obrigar-se", "prometer solenemente".

Há em princípio um sentido devocional em votar. Uma pessoa pode devotar-se aos pais, devotar amizade a alguém, votar, dedicar seu tempo, sua vida à ciência, a uma causa etc. Entre os católicos, fala-se em "missa votiva", celebrada como cumprimento de promessa feita a Deus. E há os que fazem votos de castidade, de pobreza, de obediência.

"Bodas" também tem a ver com votos. Do latim vota, que é plural de votum. São promessas de uma vida em comum, bodas de ouro, de diamante, de brilhante...

O sentido moderno de manifestar desejo, de aprovar com sufrágio, expressando opinião própria, nasce no século XV. O verbo votar acabou se tornando mais popular e corriqueiro do que "sufragar", inicialmente mais adequado, a partir do latim suffragium, em relação com fragor, "quebrar" (o silêncio), "clamar".

sábado, 2 de outubro de 2010

Fora da etimologia não há salvação

Meu amigo Pedro Paulo Monteiro, pensador e escritor, escreveu-me pelo Facebook: "Meu amigo, mais um desafio. A palavra 'SALVAÇÃO' segundo Jean Yves Leloup em hebraico quer dizer 'Respirar ao largo'. Perguntei a um especialista na língua hebraica, e ele me disse que isso não faz sentido. E agora? Qual a etimologia da palavra 'SALVAÇÃO'? Saudades de nossas conversas. Um abraço."

Caro Pedro Paulo, será que existe salvação fora da etimologia?

Você menciona Jean-Yves Leloup, e num de seus livros, de fato, ele diz que o sentido da palavra "salvação" em hebraico é "respirar à vontade" (Nomes de Deus, Unesp, 2002, pág. 35).

Consultando o Dicionário hebraico-português & aramaico-português, de Nelson Kirst e Rudi Zimmer (Sinodal / Vozes), descubro que a noção de salvação está associada a bem-estar, beleza, segurança, prosperidade, libertação, claridade. Não vejo por que, em alguma medida, a livre respiração não estaria incluída no vasto campo semântico das coisas boas!

Antes de receber no latim eclesiástico a conotação mais radical de salvação eterna, o adjetivo salvus, entre os antigos romanos, estava relacionado ao que é "inteiro", "intacto", e, portanto, ao que se encontra em bom estado. Uma pessoa com boa saúde (respirando bem!) está salva, neste sentido físico ou fisiológico.

O latim salvus nos remete a *solwos, no indo-europeu, com base em *sol-, que mais tarde formará o grego
holos, "todo", e, no latim, solidus, "firme", "real", "total" (a expressão latina "solida libertas" significa "liberdade completa").

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Entre o cuspe e o mármore

O frequente leitor deste blog, Marcos, do Rio de Janeiro, pergunta: "Nada de 'esculpido e encarnado' ou 'esculpido em Carrara'... É mesmo 'cuspido e escarrado', certo, professor? Com você, a palavra..."

Em Mas será o Benedito? (Globo, 1996), Mário Prata diz que pairam dúvidas sobre a origem da expressão "cuspido e escarrado", significando que duas pessoas têm feições muito parecidas. Refere-se o autor a duas versões. Ou seria corruptela de "esculpido e encarnado", ou de "esculpido em (mármore de) Carrara".

Já Reinaldo Pimenta, no primeiro volume de A casa da mãe Joana (Campus, 2002), não menciona Carrara e afirma que a expressão original é "esculpido e encarnado". A frase (exemplo mais citado) "o filho saiu ao pai, esculpido e encarnado" nada tem a ver com mármore ou cuspe.

No Dicionário UNESP do português contemporâneo (2004), cujo prestigioso organizador é Francisco S. Borba, explica-se que "cuspido e escarrado", equivalente a "idêntico", "exatamente igual", nasceu de "esculpido e encarnado". De Carrara nem sombra.

Na fala popular trocadilhesca, os conceitos mais elaborados (esculpir e encarnar) são substituídos pela ação que indica desprezo (cuspir e escarrar). Esta reação brincalhona é bem típica.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As duas faces da reverência

Perguntaram a este blog qual a origem da palavra "reverência".

No latim, reverentìa significava "receio", "temor respeitoso", mas também "estima". O verbo latino revereor é formado pelo prefixo re-, indicando intensidade, e pelo verbo vereor, "temer", "hesitar", "estar com cuidado".

A reverência é receio de ofender uma pessoa, um valor, um dever a cumprir, um princípio. Há um misto de temor e amor, de zelo, respeito e consideração. Reverenciar por medo apenas é diminuir-se. Amar sem boa dose de respeito pode levar ao descuido.

A título de exemplo, é bem conhecida a frase do poeta romano Juvenal (século I): "Maxima debetur puero reverentia", ou seja: "Devemos ter por uma criança o máximo respeito, a máxima reverência".

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O que há de comum entre o hotel, o hospital e o hospício?

Outra consulta a este blog: "Professor, as palavras 'hospital', 'hospício' e 'hotel' derivam de uma mesma raiz etimológica?"

Em meu livro Palavras e origens comento o parentesco entre "hotel" e "hospital". Ambas as palavras provêm do latim hospes, "aquele que é recebido". No caso de "hotel", a palavra chegou-nos pelo francês hôtel, que no século XIII foi hostel, em conexão com o latim medieval hospitale, designando casa suficientemente ampla, hospitaleira, em que se podia abrigar gente de fora.

Do século XV para o XVI começou-se a distinguir a instituição que, por caridade, acolhia os necessitados em geral (pobres, forasteiros, viajantes, peregrinos, velhos, enfermos...) da que cuidava dos doentes e moribundos. Nascia a ideia do hospital.

O vocábulo "hospício" remete igualmente a hospes. Casas (religiosas ou não) que hospedassem gratuitamente crianças e velhos abandonados, pessoas incapacitadas para o trabalho ou doentes incuráveis adquiriram o perfil de asilos. Mais tarde, a palavra ficou associada ao lugar de abrigo para os alienados mentais.

domingo, 26 de setembro de 2010

O camelo hiperbólico

Chegou a este blog uma pergunta mencionando São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, santo que os católicos homenageiam no mês de setembro: "Já que está falando de religião, por acaso houve erro na tradução de São Jerônimo na expressão bíblica 'é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, do que...' ou 'camelo' está errado e deveria ser 'corda' (do grego)?"

De fato, surgiu uma polêmica em torno dessa passagem, em que Jesus afirma não terem os ricos a menor chance de entrar no reino de Deus. Seria tão impossível quanto um camelo passar pelo buraco da agulha (cf. Mt 19:23-30; Mc 10:23-31 e Lc 18:24-30).

Conforme alusão de Deonísio da Silva em seu A vida íntima das frases (Novo Século, 2009), foram levantadas duas hipóteses com relação à tradução, tornando a frase menos exagerada... hipóteses que na verdade se opõem.

Teria havido, no texto grego, uma troca entre kamelos ("camelo") e kamilos ("corda grossa", "calabre"). A própria palavra do aramaico utilizada por Cristo carregaria ambiguidade — gamla ("camelo") e gamala ("corda grossa").

Além de parecer mais lógico (afinal, o que teria um camelo a ver com agulhas?), a imagem da corda grossa permitiria uma saída para os ricos, como nos conta João Ribeiro no livro Frazes feitas (Francisco Alves, 1908). Segundo interpretação mais liberal, o calabre poderia passar pelo fundo da agulha, contanto que fosse desfiado. Passaria fio por fio, exigindo paciência e esforço.

Numa segunda hipótese, que suavizaria também a frase evangélica e daria uma chance aos ricos, diz-se que o "olho da agulha" era o nome de uma por­ta estrei­ta à entrada de Jeru­sa­lém. Se o camelo inclinasse a cabeça (sinal de humildade...) ou se deixasse cair por terra boa parte da carga (desprendimento...), poderia atravessá-la.

Não é possível aceitar as duas hipóteses ao mesmo tempo. Ou o camelo é uma corda ou a agulha é uma porta. Ambas parecem mais sensatas do que a hipérbole patente no texto em latim: "Facilius est camelum per foramen acus transire, quam divitem intrare in regnum Dei" (Mt 19:24). A tradução: "É mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha do que o rico entrar no reino de Deus."

Camelo atravessando
o buraco da agulha
graças ao dinheiro,
de Eric Angeloch

As duas hipóteses, no entanto, carecem de fundamentos mais sólidos. Analisar o texto evangélico requer contextualizações linguísticas, culturais e teológicas. O "rico", para Cristo, era todo aquele que confiava nos bens materiais mais do que em Deus. O camelo tentando passar pelo buraco da agulha é hipérbole humorística. O exagero desmonta a ideia dominante de que os bens materiais, muitos ou poucos, garantem algum tipo de salvação. Essa presunção e essa arrogância são perigoso caminho. Impossível entrar no âmbito divino sem a riqueza espiritual.

De mais a mais, não se trata de frase absurda para os ouvintes orientais. Basta lembrar passagem semelhante no livro sagrado dos muçulmanos (Alcorão 7:40): "Aqueles que desmentirem os Nossos versículos e se ensoberbecerem, jamais lhes serão abertas as portas do céu, nem entrarão no Paraíso, até que um camelo passe pelo buraco de uma agulha."

Entre os judeus, é conhecida a passagem no Talmude em que, para definir uma coisa impossível, fala-se de um elefante atravessando o orifício da agulha (cf. Tratado Berachot 55b).

sábado, 25 de setembro de 2010

O cheque nem sempre está em xeque

Há quem se confunda e em vez de escrever "em xeque" ("em perigo", "em situação duvidosa"), expressão baseada no jogo do xadrez, escreve "em cheque". Mas a confusão não é por menos...

O cheque é um documento bancário. A palavra chegou-nos pelo inglês, do verbo to check, "fiscalizar", "verificar". No século XVIII, encontramos bank check. O nosso "cheque" começou a circular no século seguinte, adquirindo com o tempo diferentes modalidades: pré-datado, visado, especial e... voador!

Curiosamente, check em inglês também tem a ver com "xeque" em português, no âmbito do xadrez. Dizemos, em inglês, "my king is in check", "meu rei está em xeque", em perigo, está sendo atacado.

No latim vulgar, a forma *scaccus proveio do árabe xah, "rei", peça principal do xadrez. As formas intermediárias échec (francês) e jaque (espanhol) levaram a xaque (antigo português) e ao nosso "xeque". Quando o rei sofre ameaças, é preciso gritar seu nome, adverti-lo de que corre sérios riscos. A noção de que algo está correndo perigo saiu do tabuleiro e se expandiu para outros terrenos a partir do século XIV.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Insulto bem gaúcho

Um leitor pede a etimologia de "calavera".

Trata-se de insulto típico no Rio Grande do Sul. Aparece na obra de escritores gaúchos como Érico Veríssimo e Sergio Faraco. Pode-se dizer/escrever "calavera" ou "calaveira", com vários significados: "indivíduo desocupado", "ocioso", "caloteiro", "vagabundo", "malandro".

Remete ao espanhol calavera, "caveira", com o sentido de "estouvado" e "leviano". A palavra nos envia ao latim calvaria, "crânio". A questão é saber qual a relação entre a caveira, o crânio descarnado, e um calavera.

Uma hipótese: calavera é o cabeça de vento, o cabeça-oca, aquele que não pensa. A caveira como cabeça vazia seria a imagem de um doidivanas.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Etimologia na escola

O leitor Marcos, do Rio de Janeiro, perguntou: "Prof.Gabriel, gostaria, se possível, de que comentasse sobre a origem de algumas palavras. São elas: 'educação', 'escola', 'aula', 'professor' e 'aluno'. Grato!"

Marcos, você já pode ler no blog a origem da palavra "professor". Quanto a "aluno", procede do verbo latino alere, referente à alimentação, ao sustento e ao crescimento. O aluno se nutre das palavras do professor, ou de um livro, ou de um site, um documentário etc., assimilando e transformando em conhecimento próprio tudo o que ouve, vê e experimenta.

"Educação" é verbete no meu livro Palavras e origens, e lá eu explico que ducere, em latim, com o sentido de "trazer", associado a ex ("fora") indica que educar é "conduzir para fora". Podemos especular que seja um conduzir o aluno para fora de si mesmo em direção à sociedade, ao mundo. Outra possibilidade é pensar a educação como um processo que traz à tona os nossos talentos.

Uma sala de aula retratada
por Albert Anker (1831-1910)
"Aula" (outro verbete no meu livro) proveio do grego aulé, indicando um espaço dentro dos palácios em que se podia ficar. "Áulico" é, hoje, sinônimo de "palaciano". A sala de aula é expressão pleonástica. Se pensamos aula como exposição feita pelo professor sobre algum assunto, temos uma metonímia, enfatizando-se o que ali se realiza.

E "escola", também comentada no Palavras e origens, provém do grego skholé, espaço vital em que se praticava o ócio, a discussão livre, o aprendizado como experiência intensa, a salvo das pressões externas.

Para quem quer conhecer a origem de outras palavras relacionadas ao mundo da escola, do estudo, da academia, recomendo Oculto nas palavras, de Luis A. Castello e Claudia T. Mársico (Autêntica, 2007).

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O céu considerado

Um leitor volta a perguntar: "Professor, procede a ideia de que 'considerar' é 'estar/conversar com as estrelas'? Grato pela ajuda!"

Meu caro, "considerar" tem a ver com observação minuciosa, com um examinar atento e cuidadoso. Porque, como você já antecipou, associava-se à importantíssima tarefa de observar as estrelas.

No latim, considerare era verbo formado por com- ("com") e sidus ("constelação"). Os antigos olhavam para o céu e para as estrelas, em busca de respostas.
Os chamados três magos da tradição cristã viviam fazendo considerações, e foi um fenômeno sideral que os conduziu à manjedoura de Jesus recém-nascido.

O termo se afastou da noção astrológica/astronômica, mas vale a pena lembrar que a observação atenta do céu requeria boa dose de meditação e capacidade interpretativa, o que pode nos fazer reconsiderar, repensar, reavaliar nossa visão de mundo.

Por oposição, vislumbramos na palavra "desconsiderar" uma atitude de desprezo, em que alguém ou algo são excluídos do nosso horizonte existencial.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O desejo de estudar

Esta mensagem rendeu: "Professor, gostaria de conhecer melhor a origem de algumas palavras (não afins). São elas: 'irmão', 'casamento', 'paraninfo' e 'estudar'. Grato pela ajuda!"

Prezado leitor, vimos a origem de "irmão", "casamento" e "paraninfo". Resta "estudar".

No meu livro Palavras e origens há o verbete "estudante", em que mostro a relação entre estudar para conhecer e gostar de conhecer.

Estudar é aplicar-se. O estudante se dedica, deseja saber, guarda na mente e no coração o que é importante.

Uma palavra em consonância é "estojo". Nascem ambas de *studiare (latim medieval), proveniente do latim studium, associado a "esforço",
"diligência", "zelo" e "cuidado".

domingo, 19 de setembro de 2010

Borboletas borboleteantes

O professor e escritor catalão Jorge Wagensberg, em seu livro Pensamentos sobre a incerteza (Saraiva, 2010), faz uma curiosa observação etimológica e entomológica. Chama nossa atenção para o fato de que as borboletas batem suas asas várias vezes em diferentes idiomas, multiplicando sílabas, asas bilabiais, fricativas, constritivas e oclusivas.
Será papallona (catalão), mariposa (castelhano), pinpilinpauxa (basco), papillon (francês), farfalla (italiano), butterfly (inglês), Schmetterling (alemão), baboqka (russo), kelebek (turco), parpar (hebraico), petalouda (grego), kipepeo (suaíli), fluture (romeno), pillangó (húngaro), liblikas (estoniano)...

Temos em português, além de "borboleta", a palavra "panapaná", que nasceu do tupi panã ("bater"). O bater das asas da borboleta suscita a palavra panamã. E diante de um bando de borboletas, as sílabas também se multiplicam: panapaná.

Quanto a "borboleta", há controvérsias. Uma hipótese, na mesma linha onomatopaica, é que proveio de papilio ("borboleta", em latim), com percurso borboleteante não muito claro. Outra possibilidade, com motivações visuais, conforme José Pedro Machado em seu dicionário etimológico, é ser reduplicação em tom afetivo de bellus ("bonito", "encantador", em latim). Teríamos tido então *belbellita (um diminutivo), que resultou em "borboleta" a partir do século XIV.

sábado, 18 de setembro de 2010

A hora e a honra do paraninfo

Retomando a mensagem de um leitor: "Professor, gostaria de conhecer melhor a origem de algumas palavras (não afins). São elas: 'irmão', 'casamento', 'paraninfo' e 'estudar'. Grato pela ajuda!"

Muito bem! Depois de "irmão" e "casamento", palavras já comentadas, chegou a hora de "paraninfo".

A palavra vem do grego paránumphos. Em sua formação, está nymphe, "noiva" ou "recém-casada", e para, "ao lado de". Quem está ao lado, está para proteger e ajudar. Era, entre os gregos, o amigo do noivo que acompanhava a noiva durante a cerimônia de casamento.

Ao longo dos séculos, essa espécie de padrinho surgiu em outras circunstâncias, como nos duelos. O paraninfo, na vida acadêmica, é escolhido pelos formandos de um curso para acompanhá-los neste momento de festa.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O mistério etimológico da religião

Nova consulta: "Professor, de onde vem 'religião'? A ideia é a de religar (o homem a Deus)? Obrigado, desde já!"

A etimologia popular atribui a origem da palavra "religião" a religare, do latim: a religião religaria o homem a Deus. Uma ideia bonita... mas sem fundamento. Etimologia falsa, embora cheia de boas intenções.

No latim, religio designava "respeito", "reverência". A palavra deriva de relegere, em que re-, "de novo", está associado ao verbo legere, "ler", abrigando o sentido de "tomar com atenção". Uma pessoa vive a religião quando, uma e outra vez, cuida escrupulosamente de algo muito importante, algo que deve ser cultuado.


Em sua origem latina, "religião" não é palavra religiosa, não remete ao transcendente, como quando falamos do ponto de vista do cristianismo, do judaísmo ou do islamismo. A religio romana referia-se à atitude de reverência que um cidadão romano tinha pelas instituições do Império.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O que professa o professor?

Nova consulta da leitora Maria Lídia: "Estou adorando este site e até abusando... poderia me explicar a palavra 'professor'? Não seria melhor 'ensinador', 'educador'? Obrigada."

Prezada Maria Lídia, vamos até o latim professor, indicando pessoa que professa, que declara (fateri) diante de todos (pro-) ser expert em algum saber. Ora, acreditamos que quem sabe pode, em princípio, ensinar a quem não sabe. Embora se diga, em tom de brincadeira, que quem sabe faz e quem não sabe... ensina.
Os professores professam, confessam saber algo, e afirmam saber ensinar. A palavra "ensinador" não está dicionarizada, mas poderia estar. Quem ensina
sabe assinalar (lembrando *insignare, do latim vulgar) algo, mostrar algo com clareza, enfatizar.
O educador, por sua vez, é quem alimenta, orienta, prepara. No latim clássico, educator forma-se com a partícula ex- e o verbo ducare: "conduzir para fora", admitindo-se que seja um conduzir a pessoa para fora de si mesma (abertura para o mundo) ou para fora do reduto familiar (descoberta de outros âmbitos da vida social).

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Vai de vaia

Um amigo me contou ter ouvido algumas pessoas dizerem que a frase "Quem tem boca vai a Roma" na verdade é "Quem tem boca vaia Roma". Estava meio perplexo e queria saber se "vai a" é mesmo "vaia".

Talvez haja aqui uma motivação anticlerical, se Roma estiver identificada com o Vaticano. Ou se trata de uma brincadeira, um trocadilho. A mesma expressão em outros idiomas refere-se à ideia de que chegará a Roma, ou a qualquer lugar do mundo, quem souber se comunicar. No século XIII, em francês, se dizia "Qui langue a, à Rome va". Quem tem boca, quem tem língua chega lá.

"Vaia" vem do espanhol vaya e/ou do francês baie. Em ambos os casos seria decorrência de uma interjeição de surpresa misturada com desaprovação. A expressão "bah" estaria próxima disso. Vaiar, manifestar insatisfação com a voz. Parentes da vaia são os apupos e assobios, com diferentes intenções de zombaria e reprovação.

domingo, 12 de setembro de 2010

Casa para quem casa

Um leitor escreve: "Professor, gostaria de conhecer melhor a origem de algumas palavras (não afins). São elas: 'irmão', 'casamento', 'paraninfo' e 'estudar'. Grato pela ajuda!"

Meu caro, vimos a origem da palavra "irmão". Agora, a palavra "casamento".
Procede do latim casa, "choupana", "pequena propriedade". Acrescentando-se a partícula -mentu (do latim vulgar) forma-se o substantivo, que surgiu no século X. Duas funções importantes da casa: proteger seus habitantes da inclemência do frio e dos incômodos do calor.

O casamento, no sentido etimológico, é um "lugar" caloroso, para nos proteger do frio da solidão, e arejado, para nos abrigar do fogo das dificuldades.

sábado, 11 de setembro de 2010

Irmão de verdade

Um leitor escreve: "Professor, gostaria de conhecer melhor a origem de algumas palavras (não afins). São elas: 'irmão', 'casamento', 'paraninfo' e 'estudar'. Grato pela ajuda!"

Prezado, para que a postagem não se disperse, comecemos com a palavra "irmão". Futuramente voltarei às outras.

No latim havia o adjetivo germanus, "autêntico", "natural", em relação com a noção de "origem". Pensemos na palavra "germe", momento inicial de um organismo.

A expressão latina frater germanus significava "irmão legítimo", nascido dos mesmos pais. O termo germanus sozinho passou a designar "irmão". Houve uma passagem de iermano (século IX), para a forma *ermão e, finalmente, a atual "irmão".