quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Caras e caretas

Alguns jornais e portais deram destaque, hoje, ao filho do senador Jader Barbalho. O menino Daniel, de 9 anos, estava na posse do ilustre político, que depois de ter enfrentado a Lei da Ficha Limpa, foi agora reconduzido à cena com 1,7 milhão de votos.

Mas quem roubou a cena mesmo foi o filho, cujas caretas estão nas primeiras páginas, por exemplo, do O Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo.

A palavra "careta" é uma "cara" especial. No grego, kára significava "cabeça" ou "cimo" (de árvore ou montanha). Especula-se que a palavra "crânio" ("parte superior, protegendo o encéfalo"), que nos chegou pelo latim medieval *cranium, está relacionada com a mesma palavra grega kára.

Com o tempo, o sentido concentrou-se na parte anterior, na face, de animais e homens, e ao mesmo tempo assumiu todo o indivíduo — falamos daquele cara (uma pessoa indeterminada), ou elogiamos alguém e o destacamos da multidão dizendo que ele é "o cara"!

Ao acrescentar o sufixo -eta à "cara", não pensamos que é uma cara pequena, como em "faceta", mas que é uma cara expandida. O sufixo acaba significando o contrário do habitual — "estatueta" ("estátua de pequenas dimensões"), "banqueta" ("pequeno banco") etc.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

De onde vem a massagem?

A massagem vem do Oriente (China, Índia, Arábia, Egito...), e a palavra chegou até nós pela França. No século XIX, começou a circular a palavra "massage", como fruto da expedição científica e militar ao Egito (entre 1798 e 1801), organizada por Napoleão Bonaparte. A inspiração, segundo alguns etimologistas, vem do verbo árabe mass ("tocar com suavidade"). Outros pesquisadores mencionam o verbo arábico mássah ("friccionar").

Outra possibilidade é que a mesma palavra francesa tenha surgido do português "amassar", com esse sentido de massagear, mas agora com base nas experiências dos portugueses na Índia. A palavra remetendo ao latim massare ("apalpar"), e, mais longinquamente, ao radical indo-europeu *-mag ("comprimir com as mãos").

Contudo, há ainda uma terceira possibilidade etimológica. O francês massage teria vindo do antigo francês masse ("clava"), derivado por sua vez do latim vulgar *mattea, indicando o cabo de enxada. Neste caso, o movimento massageador guardaria alguma semelhança com o modo de mexer e cutucar a terra.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nuvem de palavras

Depois de um ano e meio de blog etimológico, com um total de 173 postagens, uma nuvem de palavras retrata o trabalho desenvolvido aqui.
Que "palavra" e "verbo" sejam as mais citadas não surpreende. Chamam a atenção "futuro" e "criança", o que faz pensar como o estudo do passado e das origens não nos afasta do porvir. Esse porvir que, literalmente, está "por vir".

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O rei da região

Recebi pelo formspring uma consulta sobre a origem de "região".

A palavra designa um território delimitado, mas não arbitrariamente. Uma região possui características que a distinguem de outras. No entanto, alguém precisa estabelecer quais são as fronteiras dessa região, regular (no latim, regere) seus limites.

O verbo regere está na origem também das palavras "rei" e "regra". Reinar é dirigir, criar regras (para que os outros andem na linha reta...), encaminhar outras pessoas, ter o comando, saber a direção. Quem define uma região demonstra possuir conhecimento e poder.

domingo, 6 de novembro de 2011

Quem ocupa se preocupa?

O movimento Occupy Wall Street é (foi) preocupante? E preocupante para quem? Parece que a ideia está ocupando a cabeça de muitos mundo afora.

A palavra "ocupar" vem do latim occupare, formado pelo prefixo ob- e o verbo capere, que nos remete a vários significados: "pegar", "apanhar", "capturar", "apoderar-se", "conquistar". A expressão latina "occupare regnum" significava "fazer-se rei".

Quem ocupa (um espaço, uma casa, uma rua, um terreno, um país) toma posse de algo que está à sua frente. Quem ocupa tem muito de invasor, mas também, do ponto de vista positivo, manifesta iniciativa, e uma certa dose de coragem. Podemos dizer que as terras brasileiras no século XVI foram ocupadas pela Europa. "Descoberta" é eufemismo.

A propósito, nos ambientes ingleses dos séculos XVI-XVII, usava-se occupy como eufemismo de "fazer sexo".

A palavra "preocupação" já significou uma ocupação antecipada. O preocupado era aquele que, por ser mais capaz, ocupava primeiro!

Mas talvez porque aquele que estava se preparando para ocupar algo antes dos outros ficava muito ansioso e inquieto, a preocupação acabou se transferindo (lá pelo século XVII) do ato externo para o interno. Preocupado é aquele que, na verdade, é invadido por pensamentos perturbadores.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tudo é futuro

A palavra "futuro" é tudo o que temos pela frente. E futurar talvez seja a ação mental mais constante (e inconsciente) — estamos sempre tentando prever e predizer o que acontecerá.

No latim, futurus é o particípio futuro de esse (verbo "ser"). Significa "aquilo que há de ser". O futuro corresponde, literalmente, ao porvir, ao que será.

domingo, 9 de outubro de 2011

A presença da criança

A presença de uma criança deveria mudar a atmosfera. A criança dentro do ventre, nos braços da mãe, a caminho do mundo deveria nos fazer pensar melhor. E agir melhor.

A palavra se forma com o verbo "criar" e o sufixo "-ança", indicando a ação que resulta do criar e do nutrir. A ama que amamentava crianças alheias era chamada "criadeira". A criança bem-criada é aquela que recebe boa alimentação, boa educação, carinho, atenção. Não só um dia, mas durante todos os dias da infância. 

domingo, 2 de outubro de 2011

Perigosa transparência

Exigimos que as pessoas sejam mais transparentes, que o governo tenha compromisso com a transparência, queremos que "as coisas nos ministérios", como disse um político, "possam ocorrer com a máxima transparência"...

Perigosa transparência! Etimologia que avisa amiga é. O que podemos ver se tudo estiver excessivamente transparente? A palavra chegou até nós pelo francês transparent, devedor do latim medieval transparens, em que temos a preposição trans- ("através de") e o particípio presente parens, de parere ("aparecer").
Inicialmente, na transparência, a luz passa através, permitindo ver o que, na opacidade, fica oculto. Contudo, essa ênfase excessiva, obsessiva, à transparência, tal excesso de luz... pode levar a uma nova invisibilidade. Uma ação tão transparente se tornará imperceptível...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O comerciante e suas mercadorias

Pelo formspring, recebi pergunta sobre a origem da palavra "comerciante".

No latim tardio, *commerciare designava a ação de negociar mercadorias. Remete ao latim clássico mercor, "adquirir por dinheiro", "negociar", relacionado a merx, "mercadoria". O mercenário é uma espécie de comerciante, por vender sua capacidade de lutar como mercadoria. Na mercearia, vendem-se mercadorias. O mercado é o espaço público em que se realizam atos de compra e venda.

Alguns etimólogos veem ligação de merx com o nome do deus romano Mercúrio, que protegia as relações comerciais e recebia especial devoção por parte dos comerciantes.

domingo, 28 de agosto de 2011

A maçã mordida

A Apple e sua marca estão em evidência. Um amigo perguntou-me sobre a origem da palavra inglesa e de "maçã".

A evolução da logomarca é conhecida. No início, a cena de Newton e sua maçã. Daí rapidamente passou-se para a maçã mordida, aludindo à curiosidade de Adão e Eva. O fruto do conhecimento e a tentação assumida.

A palavra apple, æppel no inglês medieval, significava originariamente qualquer tipo de fruto, e teria nascido de uma palavra proto-germânica (na pré-história das línguas germânicas e do inglês). O fruto proibido (ou appel of paradis) poderia ser a maçã, o figo, a banana ou outro.

E "maçã" remete ao latim mala matiana ("frutos de Matius"). Teria havido na antiga Roma (século I a.C.) um homem chamado Gaius Matius, estudioso da biologia, da agricultura e da gastronomia, a quem se atribui a produção de maçãs melhores a partir da técnica do enxerto.

Furacão da paz?

Notícias sobre o furação Irene chegam de hora em hora. Ele (ou ela) avança, provocando medo e causando estragos. Já passou por Porto Rico e pela República Dominicana, já chegou aos Estados Unidos, avança sobre Nova Iorque.

Chama a atenção, para a etimologia, o fato de "Irene" ser um nome cheio de paz. Vem do grego eirene, termo usado pelos tradutores bíblicos para a saudação hebraica shalom, "segurança", "bem-estar", "prosperidade", "tranquilidade".

O furacão Irene não tem desejos de paz, contrariando seu nome. Ou o batizado foi uma forma de pedir que os ventos não sejam tão destruidores? Uma forma de lhe desejar, e a todos, uma boa noite...?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Neymar virou meia...

O atacante "Neymar virou meia". Esta brincadeira foi provocada pela propaganda abaixo.



Se tivesse mudado de posição, Neymar seria agora meia-direita ou meia-esquerda? Ou as duas? A expressão "meia" permite a ambiguidade por ser redução tanto de meia-esquerda/direta, como de meia calça (não confundindo esta com a meia-calça, usada apenas pelas mulheres).

"Meia" remete ao adjetivo latino medius, indicando o que está no meio. Assim, no vestuário, temos a meia como peça que calça os pés e vai até o meio da perna, e, no futebol, os meias que jogam no meio-campo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O voucher dessa operação

Um amigo perguntou-me qual a origem da palavra voucher, bastante mencionada ultimamente, em razão da Operação Voucher, com que a Polícia Federal tem feito investigações no Ministério do Turismo.

O significado desse estrangeirismo aparece em nossos dicionários: "documento emitido por agência de viagem, etc., e enviado aos seus clientes, que comprova o pagamento antecipado de despesas, como reserva em hotéis, refeição, locação de automóvel, etc." (Aurélio), e "vale ou cheque que assegura um crédito para futuras despesas com mercadorias ou serviços" (Houaiss).

A etimologia vai mais longe. Chegaremos ao latim vocare ("chamar"), que precedeu o galo-românico *voticare ("chamar com insistência"), por volta do século VIII. No antigo francês (mais ou menos no século XIV), surgiu vocher ("chamar", "invocar"), que redundou no anglo-francês voucher. No final do século XVII, há registros da palavra usada como recibo que documentava transação comercial.

Somente agora, na década de 1940, a palavra passou a ser usada para designar documento cambiável por bens ou serviços. Forçando a relação etimológica, digamos que o voucher é um "chamador", chama para si o valor com o qual se pagará algo.

Forçando ainda mais, a Operação Voucher da PF é um "documento" com o qual os possíveis criminosos já têm a sua viagem para a cadeia garantida, com algemas seguras...

domingo, 14 de agosto de 2011

A faxina presidencial

A imagem de Dilma Rousseff como faxineira do Planalto, limpando os ministérios, ganhou textos e charges na mídia recente. Hoje mesmo, nas revistas CartaCapital e Veja, no Estadão e na Folha, li várias vezes "faxina" associada à presidenta. De onde vem a palavra?

Provém do italiano fascina ("feixe de lenha", "braçada de lenha"), remetendo ao latim fascis ("feixe", "molho", "fardo"). Quando alguém lá pelos séculos XII-XIII tinha de carregar feixes de lenha para limpar um terreno, enfrentava um trabalho duro. Uma das acepções para "faxina", hoje: unidade de peso para lenha, equivalente a 60 kg.

Foi essa dupla noção, de limpeza estafante, que mais tarde deu ao termo "faxina" sentido de tarefa braçal cansativa, especialmente nos ambientes militares.

Entre o século XIX e o XX, saltamos do encarregado de faxinar (fazer limpeza geral) na caserna ou no convés de um navio para a faxineira de uma casa. Ao soldado e ao grumete, corresponde, na vida civil, a mulher da classe inferior que realiza os serviços mais "baixos".

No atual contexto político, a palavra foi promovida. É à própria presidenta da República que se atribui agora o trabalho pesado de deixar o palácio um pouco mais limpo... ou um pouco menos sujo.

sábado, 16 de julho de 2011

E que os anjos digam "amém"!

Nova pergunta pelo formspring, desta vez sobre a origem da palavra "amém".
Interjeição religiosa, do hebraico amén ("assim seja", "em verdade"), que, segundo Isidoro de Sevilha, era intraduzível. Ou melhor, mesmo que fosse traduzida, e o foi para o grego e o latim, alcançando outros idiomas, Santo Isidoro, padroeiro dos etimólogos, afirmava que continuaria sendo palavra hebraica, em virtude de seu poder sagrado.

Em sua obra Etymologiarum, Isidoro lembra ainda que, numa cena do Apocalipse de São João, aparecem anjos dizendo "amém". Daí ser conveniente pronunciarmos essa palavra do mesmo modo que é ouvida no céu.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Há algo de chique no chiqueiro?

Faz alguns dias, perguntaram-me pelo formspring: "Professor, gostaria de saber de onde vem a palavra 'chiqueiro', no sentido de lugar onde se criam porcos... Obrigada!!!"

Do árabe shirkair, "cabana", chegando até nós por meio do castelhano chiquero. Esta é uma hipótese para designar a pequena habitação dos porcos. Já o chiqueirinho, ou cercadinho, é o móvel onde se colocam crianças pequenas. Nada a ver com pocilga, e existem chiqueirinhos bem chiques.

"Chique" é galicismo que já usávamos no final do século XIX. Mas chic, termo comum no mundo da moda, foi germanismo incorporado pelos franceses. Na Renânia e na Alsácia, usava-se a palavra schick, derivada do verbo schicken ("preparar", "pôr-se no caminho"). Uma pessoa chique está preparada, vestida com elegância, para sair. Por extensão, chique é tudo aquilo que se apresenta com requinte.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Adolescentes, adultos e adjacências

Um leitor do blog perguntou sobre a origem da palavra "adolescente" e um amigo, sobre as raízes de "adulto". As duas palavras têm parentesco entre si.
O verbo latino adolescere refere-se ao que cresce e amadurece. O adolescente está em processo de crescimento. Nada a ver com "doença", como alguns inventaram. Ao contrário. O termo latino carrega em si os verbos alere ("alimentar") e alescere ("começar a se alimentar"), em consonância com "aluno", ou seja, aquele que é alimentado.

O adulto é o adolescente que amadureceu. Que já adolesceu, no sentido de ter ultrapassado a fase de crescimento, em geral quando se chega aos 21 anos.

A partir da década de 1950, a palavra "adulto" começou a ser empregada em expressões como "literatura adulta" e "filme adulto", associadas a algo indecente ou pornográfico. O que é curioso, porque os maiores interessados nesse tipo de literatura e cinema são os adolescentes e não os que já amadureceram realmente.

sábado, 18 de junho de 2011

Psiu! Sigilos!

Os dois sigilos "técnicos", por assim dizer, são o profissional e o sacramental (do confessionário católico).
O sigilo profissional é dever ético que médicos, advogados e qualquer profissional tem de cumprir quando isso envolve a intimidade e a honra de outras pessoas. O sigilo confessional tem de ser vivido pelo padre que, ouvindo o que ouvir no sacramento da confissão, deve manter segredo. O famoso filme I confess, dirigido por Hitchcock, em que Montgomery Clift interpreta o papel do sacerdote, mostra a seriedade da questão.

Conforme explico no livro Palavras e origens, "sigilo" deriva do latim sigillum, "pequeno sinal". Uma carta devidamente lacrada, selada, sob sinete — sub sigillum —, não podia ser violada.

A atual discussão em torno do "sigilo eterno" sobre fatos da história brasileira nos faz perguntar que tipo de sigilo transforma a política em religião. Não será direito nosso saber os pecados cometidos contra o Brasil?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bolos, bolas e boleiros

Um amigo, leitor assíduo da coluna Boleiros do jornal Estado de S. Paulo, perguntou-me a origem da palavra em destaque.

A palavra "boleiro" tem vários significados ligados a bolas e bolos. Pode ser o fabricante de bolas, ou o comerciante de bolos. Pode ser o apanhador de bolas, o gandula, ou aquele que dá bolo (isto é, não vai a um compromisso). No jogo da roleta, é quem faz girar a bola.

"Bola" e "bolo" remetem ao latim bulla, em referência à bolha de ar que surge na superfície da água. Está em evidência a forma esférica. O bolo, em geral, tem esse feitio. A bolacha (o sufixo -acha mostra o pequeno tamanho da bola) é um biscoito de forma achatada, arredondada. Bolacha também designa aquele disco de papelão que serve como base para os copos de chope em bares e restaurantes, e um meio prático de registrar quantos foram consumidos pelo cliente.

Uma outra curiosidade: o verbo "bolar", no sentido de "planejar", "idealizar", "conceber", indica que a cabeça (essa bola que temos sobre os ombros) trabalhou.

sábado, 11 de junho de 2011

Dia dos Namorados: o amor que se enamora

No Dia dos Namorados, comemora-se o amor que se enamora. A palavra "namorado" equivale a "enamorado", que está formada pelo prefixo en (proveniente do in- latino), da palavra "amor" e do sufixo "ado" (do latim -atu, indicando o particípio passado).

O prefixo in expressava aproximação e/ou movimento para dentro e/ou transformação. O que poderia sugerir, no caso do "enamorado", três relações com o amor:
1) aproximação: como em "encostado" e "entestado", o en-amorado chega bem perto do amor; 2) movimento para dentro: como em "embarcado" e "encaixotado", o en-amorado entra no âmbito do amor; 3) transformação: como em "enriquecido" e "enxaropado", o en-amorado transfigura-se no próprio amor.

terça-feira, 7 de junho de 2011

— Vixe!

Um amigo nordestino, depois de ler sobre a etimologia de "chê" e "uai", perguntou-me sobre interjeição típica de sua terra: — Vixe!

Que pode ser também "ige" e "ixe", exprimindo espanto e surpresa, ou ironia, ou aborrecimento e menosprezo. No Grande Dicionário Sacconi, lemos:

Ixe (interj.) - Indica princ. admiração, surpresa, desprezo e ironia: que fogo é aquele? Ixe! é um incêndio!

"Vixe!" é forma popular que altera "Virgem!", que é forma reduzida da católica exclamação "Virgem Maria!". A palavra "virgem" remete a duas palavras latinas, virgo ("menina", "mulher nova", "ninfa") e virga ("ramo flexível", "ramo novo").

Anunciação, de fra Angelico (1387-1455)
A ideia da virgindade está ligada à força da natureza que acaba de vir à tona, à sua condição verdejante. Há o verbo latino vireo, "estar verde" e "ser vigoroso". Uma virens puella era uma menina "verde", ou melhor, uma mulher jovem e vigorosa, na flor da idade.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Etimoludia

Na edição de maio da revista Caros amigos, Marcos Bagno escreveu sobre etimologia. Afirmando que etimologia não é uma brincadeira qualquer. E que precisamos tomar cuidado com as informações pseudoetimológicas que pululam por aí, como dizer que "aluno" significa "sem luz" ou que "adolescente" tem a ver com "doença".

Ele está coberto de razão. E para denunciar as falsas origens etimológicas criou um termo: a "etimoludia". Em cuja formação temos a presença de étymon (do grego, "verdadeiro", "real", "certo") e de ludus (do latim, "jogo", "divertimento", "zombaria").

A etimoludia seria o exercício frívolo ou trapaceiro de quem não respeita o verdadeiro estudo da verdadeira origem das palavras.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Hora do espanto

Um leitor pelo Formspring perguntou-me a origem da palavra "espanto".

Antenor Nascentes refere-se ao verbo *expaentare (latim vulgar), com base em expavere ("ter muito medo", "assustar-se"). Há um outro verbo latino implícito, pavere ("tremer de medo", "estar possuído de pavor").

Criação do publicitário
e ilustrador Silmar Ribeiro
O espantalho é aquele que apavora. Sua função: gerar medo nas aves predadoras. O boneco representa o homem que afugenta e espanta o indesejável.

sábado, 28 de maio de 2011

— Uai!

Carmen Souza Ennes, leitora deste blog, pergunta qual a origem da palavra "uai".

Essa interjeição, marca registrada do falar em Minas Gerais, é muito rica. Exprime admiração, impaciência, surpresa, pasmo, susto e até terror. Pode ser usada também para reforçar mensagem, manifestando estranhamento com a dúvida do outro: "Eu já não disse que está tudo bem, uai!"

Há pelo menos duas explicações fantasiosas.

Uma delas atribui aos Inconfidentes Mineiros a sigla UAI ("União, Amor e Independência"), senha do grupo. Com o tempo a expressão teria se disseminado sem referência ao episódio histórico.

Outra explicação, falsa mas inspiradora, associa a interjeição ao inglês why. Os mineiros teriam adotado e incorporado a palavra do inglês, ampliando-lhe o sentido.
O mais provável, porém, é que "uai" remeta à interjeição latina vae ("ai!", "ah!"), como em "vae victis", "ai dos vencidos!".

sábado, 21 de maio de 2011

Impostos e imposturas

Recentemente, meu amigo Elie perguntou-me se "imposto" e "impostor" têm a mesma raiz.

Elie, não posso lhe sonegar essa resposta! Carlos Drummond de Andrade, recorrendo a uma brincadeira tautológica, dizia que o imposto se chama imposto porque é imposto...

De fato, existe um parentesco entre as duas palavras. O pai de ambos é o verbo latino imponere, "impor". No caso dos impostos, são cobrados como algo obrigatório e quem os cobra exerce uma força sobre nós. E quanto ao impostor, é aquele que engana, impondo uma mentira como se verdade fosse.
Se um Estado não utiliza os impostos corretamente, comete uma impostura. E é compreensível que os contribuintes se sintam ludibriados.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Autópsia etimológica

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Está nas bancas um novo número especial da Revista Língua Portuguesa sobre o instigante e interminável tema da etimologia. Participo desta edição com dois artigos. Um deles se detém na história de palavras ligadas à vida familiar: "pai", "mãe", "marido", "esposa", "irmão", "avô"...

O outro é sobre a origem de palavras relacionadas ao corpo humano: "dedo", "nariz", "pescoço", ombro", "joelho", "pé", "tornozelo"...

Uma verdadeira autópsia etimológica. E o competente editor, Edgard Murano, orientou a diagramação bacana, distribuindo ao lado de um corpo humano as palavras e suas origens.

Na mesma edição, artigos excelentes de Jean Lauand, Mário Eduardo Viaro, Luiz Costa Pereira Jr. e Deonísio da Silva.

sábado, 7 de maio de 2011

— Ché!

Meu amigo, o ilustre professor João Paulo de Oliveira, lançou-me um desafio etimológico:

"Caríssimo amigo Prof. Gabriel Perissé, bom dia! Solicito seus valiosos préstimos no sentido de esclarecer a origem da palavra 'ché'. Será que está vinculada à expressão regionalista meridional 'tché'? Eu a utilizo quando quero expressar ironia ou desejo deixar patente que pode haver outros sentidos para o que escrevi... Está correto? Antecipadamente agradeço!"

Meu prezado João Paulo, essa interjeição expressa dúvida, surpresa, mofa, zombaria. Tem a ver com a interjeição "chê", com o "ê" fechado, típica da fala do sulista brasileiro, com duas funções básicas: chamar alguém ou indicar admiração, assombro.

O "chê" (pronuncia-se "tchê"), segundo o etimólogo J. Corominas, provém do antigo castelhano ce, que seria, por sua vez, derivação de uma possível forma onomatopaica "tsss", ou "sss", com o intuito de chamar a atenção de alguém ou chamar animais.

Não é a única hipótese. Uma outra sugere que viria do te (latim, acusativo de tu), passando pelo galaico. Há quem afirme, como o linguista uruguaio José Pedro Roma, que viria do guarani che, "meu", em chamamentos como che amigo, che coronel, che Juanche Guevara...

domingo, 1 de maio de 2011

A etimologia veio trabalhar

No Dia do Trabalhador (outros preferem Dia do Trabalho), a etimologia acordou cedo e, mesmo sendo feriado, e feriado num domingo, veio trabalhar.

Veio trabalhar com gosto, lembrando que já estão superados os dias do verbo *tripaliare, do latim vulgar, com o sentido de "torturar", "fazer sofrer". Esse verbo, por sua vez, procede de tripalium, instrumento romano de tortura empregado contra quem não cumpria seus deveres. Que instrumento era esse?

Tripalium remete provavelmente ao adjetivo tripalis: "sustentado por três (tria) estacas (palus, 'estaca')". O supliciado era atado a esse tripé. Na realidade, quem trabalhava mesmo era o torturador, e não a vítima. A ele cabia o trabalho sujo. O que nos faz pensar em alguns chefes que sofrem ao cumprirem sua amarga missão...

domingo, 24 de abril de 2011

Um chute etimológico

Nada contra os chutes etimológicos. Fazem a alegria da torcida linguística, trazem tempero para a discussão, são o esporte preferido dos amadores, exasperam os cientistas, estimulam a imaginação.

Um chute de Luis Fernando Verissimo, em sua coluna de hoje no Estado de S.Paulo: "Aquela 'pasta' curta e oca que os italianos chamam de 'pene' tem este nome porque lembra o pênis."

Descartemos a analogia, embora também possa se tratar de uma piada intencional do Verissimo, e não um simples chute. O certo é que a massa em questão (penne, em italiano) chama-se assim pela semelhança com a pena das aves.

Quanto ao chute... tem algo de verdadeiro e pode levar ao gol numa outra investigação: em francês, pène (a lingueta da fechadura), segundo o filólogo Jean-Baptiste-Bonaventure Roquefort (1777-1834), prestigioso chutador... provinha do latim penis, associando-se o movimento da peça ao do órgão masculino.

E voltando ao penis em latim, tanto designava o pênis, como a cauda de um animal. Estando em jogo aí, nos dois casos, o verbo latino pendere, isto é, "pendurar".

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Colombo e seus canibais

Em meu blog sobre leitura, falei de um livro de Nestor de Holanda chamado Seja você um canibal, e surgiu a pergunta, entre amigos, sobre a origem dessa palavra.

A palavra "canibal" surgiu no espanhol, em 1492. É um neologismo de Cristóvão Colombo. Em seu diário, no mês de dezembro daquele ano, Colombo se refere aos índios do Caribe como caribales. Surgiu uma história de que eram ferozes e comiam carne humana.

Ao se fazer a transcrição dos manuscritos de Colombo, trocou-se o r pelo n. A forma "canibal" acabou se impondo, com o sentido de "antropófago". A palavra se firmou em português no século XVIII.

Canibalismo no Brasil, segundo a descrição de Hans Staden (1557).

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Homem com h e m

Recebi de Anápio Vichinheski Gebhardt uma consulta simples. Perguntou-me a origem etimológica de "homem". Acontece que a origem de palavra alguma é simples. Tudo o que diz respeito às origens é... original.

Há quem relacione "homem" (gênero humano) com humus, "terra", em latim. Se o marciano viria de Marte, o ser nascido no planeta Terra seria o "terroso", ou o "terráqueo" — o ser humano.

Uma das explicações etimológicas para "ninguém" tem a ver com "homem". Em latim, nemo estaria formada por ne (com sentido de negação) e hemo (forma arcaica de homo). Quando não há homem é porque não há ninguém.

Em inglês, a palavra man significa "ser humano", "homem". Segundo alguns etimólogos, está conectada à raiz indo-europeia *men-, "pensar". O homem (com sua mente mentadora) é o pensante por definição.

sábado, 9 de abril de 2011

O gume do ciúme

Ciúme dói. Corta o amor sem dó, sem razão, sem anestesia. Sofre o ciumento. E sofre quem vê a pessoa amada receber na pele o corte profundo do ciúme.

No latim vulgar teríamos *zelumen, proveniente do latim clássico zelus, cuja abertura semântica nos faz pensar numa proximidade confusa (e sugestiva) entre "zelo", "ciúme" e "cio", sempre com a presença do ardor, do fervor e do amor.

A palavra "zelote" reúne esses traços. Houve na história de Israel uma seita fanática assim denominada. Os zelotes, no primeiro século depois de Cristo, desencadearam a revolta da Judeia contra a ocupação romana. Não se viam como fanáticos, mas como zelosos, ciosos (algo de cio aqui também) seguidores da verdade, da religiosa e da pátria.

O ciúme corta e queima o ciumento. E o leva a um estado de contínua tensão/atenção/tesão. Os olhos apaixonados do ciumento espreitam. Em francês, jalousie ("ciúme") passou a designar também a persiana, através da qual o observador obcecado olha sem ser visto.

O romance La jalousie de Alain Robbe-Grillet (1922-2008), lançado em 1957, foi editado nos EUA certa vez, já nos anos 60, com uma capa que mostra ciúme e persiana associados.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Dia do Jornalista

Hoje, Dia Mundial da Saúde e Dia do Jornalista. Forçando a coincidência e o conceito de saúde, penso que uma sociedade saudável precisa de jornalistas que realizem bem o que a origem etimológica da palavra sugere.

Temos no vocabulário francês do século XVIII a palavra journalisme, que nos remete ao latim do início da Idade Média: diurnalis (advérbio, "diariamente"). A partir daí, uma pequena viagem semântica.

A palavra anglo-francesa jurnal, no século XIV, designava um livro que ficava nas igrejas, no qual se faziam registros dos serviços religiosos ali prestados. No século XVI, journal era um livro usado no comércio para registro de operações de compra e venda. No século seguinte, a palavra recebe mais um sentido, o de diário pessoal, em que alguém anota o que pensa e faz ao longo dos dias.

Bom jornalista, então, é quem, diariamente, registra o que acontece no mundo e na rua ao lado. Ele é um historiador do aqui e agora, sem perder de vista o passado. Um observador atento. Um comentarista arguto. Um entrevistador da realidade.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Marionetes livres

A palavra "marionete" é um galicismo. Vem do francês marionnette. A palavra já era usada no século XVII com naturalidade. Trata-se de um duplo diminutivo. Marionette é diminutivo de Marion, que é diminutivo de Marie. Uma outra possível tradução, com base na etimologia: mariazinhazinha.

As marionetes ganham vida e liberdade quando prometem expressividade. São pequenas criaturas à espera do momento certo para andar, falar, gesticular, correr o mundo.

A marionete acima nasceu das mãos criativas de Ana Lasevicius, e nos olha com nossos próprios olhos!

domingo, 3 de abril de 2011

Vejo daqui uma quaresmeira

O período de quarenta dias entre a Quarta-feira de Cinzas e a Páscoa, na tradição católica, chama-se Quaresma. Um amigo perguntou-me no domingo passado qual a etimologia dessa palavra. Vou reencontrá-lo hoje, e preciso dar uma resposta.
O povo escutava, na linguagem litúrgica, por volta do século VI, a expressão latina "quadragesima dies", em referência àqueles quarenta dias de penitência. E, em virtude talvez da fome que sentiam por praticarem com afinco o jejum e a abstinência, os fiéis engoliram alguns sons, produzindo "quaresma" (em português), carême (em francês), quaresima (em italiano), cuaresma (em espanhol).

As quaresmeiras são chamadas assim porque sua floração coincide com o tempo da Quaresma, e o roxo que ostentam é também a cor que simboliza o período de penitência na Igreja.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A corajosa teimosice de um vice

Assistimos à despedida de José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil. Sua corajosa teimosice.
A etimologia poderá lhe prestar uma singela homenagem, revelando-nos de onde vem o substantivo "vice". Provém do latim vice, ablativo de um desusado vix, vinculado a noções como "alternativa" e "mudança". A palavra "vicissitude" tem a mesma origem. Indica que na vida há muitas alterações, altos e baixos. Uma coisa que vem no lugar de outra, inesperadamente, quebrando nossas expectativas.

O vice-presidente é a alternativa para os momentos em que o presidente não pode estar presente. Tem parentesco com "vigário", padre que faz as vezes do prelado, ou que substitui o pároco.

O vice acabou se tornando aquele que ocupa o segundo lugar. O vice-campeão está em segundo lugar. O vice-diretor está um pouco abaixo do diretor, na hierarquia de uma empresa, mas atua como diretor na ausência de quem ocupa o cargo principal.

José Alencar atuou como vice-Lula entre 2002 e 2010 — uma aliança entre empresário e operário que tornou possível ao PT governar o país durante aqueles 8 anos.

domingo, 27 de março de 2011

O que agrega a egrégora?

Recebi a seguinte mensagem: "Olá, gostaria muito de saber o significado etimológico da palavra EGRÉGORA, bem como, saber se a sua origem tem algo em comum com as palavras CONGREGAR e AGREGAR. Obrigado!" (Charles, Teresópolis-RJ).

Prezado Charles, a palavra "egrégora" — "força espiritual resultante da soma das energias (físicas, mentais, emocionais etc.) de duas ou mais pessoas que se reúnem para obter esse efeito", segundo o iDicionário Aulete — pertence ao mundo do esoterismo.

Éliphas Lévi, pseudônimo do ocultista Alphonse Louis Constant (1810-1875), utilizava essa palavra. No seu livro Histoire de la magie define as egrégoras como entidades que capitaneiam as almas, são seres terríveis e destruidores. Não há registros etimológicos para esse termo. Talvez Éliphas Lévi, que estudou filologia, tenha se inspirado na palavra grega ἐγρήγορος ("vigilante", "desperto").

Numa interpretação moderna, seres simbólicos como o Papai Noel ou o Tio Sam poderiam ser interpretados como egrégoras.

Não há a menor possibilidade de uma relação entre "egrégora" e os verbos "agregar" e "congregar". Estes dois estão ligados ao latim grex, "grupo de animais ou indivíduos da mesma espécie", em conexão com outras palavras como "gregário", "segregado", "agremiação" e "egrégio".

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tsunami ou maremoto?

Conversando hoje em família, surgiu a dúvida: há diferença entre tsunami e maremoto? À primeira vista, o segundo foi substituído pelo primeiro na última década. Um e outro são o mesmo fenômeno?

Do ponto de vista etimológico, conforme percebeu o escritor Evaristo Eduardo de Miranda, no seu livro Animais interiores, nadadores e rastejantes (Loyola, 2004), há um certo paradoxo na formação da palavra japonesa. Se tsu é "porto" e nami significa "ondas", ou seja, "ondas de porto", cabe perguntar: as ondas se ancoram ao porto ou é o porto a se ancorar nas ondas?

O termo "maremoto", por analogia a "terremoto" (temos também "aeromoto", ares agitados, e "lunamoto", quando há abalo sísmico na lua), designa o mar em agitação: o elemento -moto (do latim motus) indica esse movimento. O maremoto é causado por um sismo no fundo do mar.

Alguns autores explicam que um tsunami, a onda gigantesca, em geral provém de um maremoto.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Diferentes tabletes

O tablet está na moda. É uma espécie de prancheta eletrônica, ou bloco de papel sem papel. O iPad de Steve Jobs é o tablet mais cobiçado. Poderíamos traduzir tablet por tabuinha? Ou por tablete mesmo?
A palavra remete ao antigo francês tablete (século XIII), diminutivo de table, "mesa", que por sua vez procede do latim tabula — "prancha", "ripa", "tabuinha" (onde se escrevia). Tablete pode ser uma barra de chocolate, por lembrar uma pequena tábua. Aliás, a palavra "tabela" está nos rondando aqui também.

Pode ser o comprimido (remédio) porque foi achatado, literalmente comprimido. Já se registrava esse uso no século XVI. E não só para pequenas peças de remédios, mas também de sabão e alimentos.

No final do século XIX, um laboratório farmacêutico britânico designou com a palavra tabloid um dos seus medicamentos compactos. E a palavra serviu no início do século seguinte para, por exemplo, pílulas de chá. Os soldados ingleses levavam esse chá comprimido, dentro de latinhas, durante a Primeira Guerra Mundial (a hora do chá é sagrada...).

tabloid se chamou o jornal em tamanho menor do que o habitual. O primeiro deles foi o New York Daily News, em 1919.

Olhando para o passado, podemos ver o pai do iPad ... um iPedra, em formato arrojado e com grande impacto entre seus usuários...

domingo, 13 de março de 2011

Mais etimologia na livraria

Nesta semana, mais etimologia na livraria, com o lançamento de um novo livro do Prof. Mário Viaro sobre o tema inesgotável.

Anote aí: dia 16 de março, quarta-feira, na Loja de Artes da Livraria Cultura, no Cj. Nacional, Av. Paulista, 2073. A partir das 18h30.

sábado, 5 de março de 2011

Carnaval: quanto vale e o que leva...

Os dias anteriores à Quarta-feira de Cinzas eram (ideia não de todo descartada) período de despedida da carne. Daí porque a etimologia popular diga que no latim medieval havia a expressão carne vale: "adeus, carne!" A "terça-feira gorda" alude ao iminente início de um tempo de jejum e abstinência.

Seria o caso de perguntar quanto vale o carnaval. Ou quanto pesa... Ou o que nos leva a pensar e fazer.

A palavra "carnaval" guarda em si um fato religioso e uma experiência cultural. O papa Gregório Magno, em 590, transferiu o início da Quaresma para quarta-feira, e denominou o domingo imediatamente anterior como dominica ad carne levandas, o domingo a partir do qual se suprimiria o consumo de carne.

A expressão popularizou-se e se difundiu. No milanês, como carnelevale. Antes, no baixo-latim, carnelevamen. Graças a um pouco de tolerância, o adeus à carne passou do domingo para a terça. De qualquer forma, a carne deve ser levada para longe do fiel antes que comece a Quaresma. Etimologicamente falando, o único dia de carnaval deveria ser a terça-feira...

terça-feira, 1 de março de 2011

Ditadura não é mole...

O comportamento ditatorial se revela em vários âmbitos da vida humana. Mais notoriamente na vida política, mas também nas relações de trabalho, sociais, afetivas, familiares etc.

"Ditadura", no sentido de poder absoluto ou autoritário (e por vezes vitalício), é palavra do final do século XVI. Na antiguidade romana, um ditador era o magistrado ou o general que recebia, com a aprovação do Senado, prerrogativas especiais ou, em casos graves, poder total.

Sua função, passando por cima das leis se fosse necessário, consistia em resolver problemas urgentes, que pusessem em risco a estabilidade da república.

Não era para sempre, porém. Uma ditatura tinha duração limitada, no máximo seis meses. Era um mandato, portanto. Não se tratava de um apegamento ao poder de um indivíduo, coisa ridícula, afinal, como demonstrou Charlie Chaplin num de seus filmes mais famosos.

A palavra "ditadura" deriva do verbo latino dicere ("dizer"), e indicava a dignidade da autoridade cujas palavras e sentenças possuíam força de lei.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

— Me diga de onde vem tanta formiga!

Não é fácil descobrir de onde vêm as formigas. Invadem, saqueiam, multiplicam-se, pululam, desaparecem, ressuscitam. Mas a pergunta é a seguinte: ao menos do ponto de vista etimológico, é possível saber a origem da palavra em questão?
Procede do latim formica. Que surgiu do grego myrmex. A alteração da primeira letra "m" por "f" pode ter sido ocasionada pela vontade de quebrar o poder devastador deste inseto. As formigas são uma autêntica praga. O redobro da letra "m" indicaria o movimento repetitivo e incansável das formigas.

Achava-se, na etimologia imaginativa praticada na Idade Média (Santo Isidoro de Sevilha era um obsessivo etimólogo e pode ser considerado o nosso padroeiro), que a palavra formica provinha da expressão ferre micas, isto é, "carregar migalhas", manifestando verbalmente uma típica ação da dita cuja.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um Oscar para a etimologia!

Uma das possibilidades etimológicas afirma que o nome masculino Oscar provém do germânico Osgar, formado por gar ("lança") e Os ("deus"). Trata-se do combatente divino, ou da lança divina que ajuda o guerreiro a vencer as batalhas.

O cobiçado Oscar, cuja entrega anual atrai a atenção de quem gosta ou vive de cinema, ganhou esse nome (esta é uma das versões) quando, em 1931, Margaret Herrick, secretária da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, teria dito ao ver a estatueta: "Nossa, parece com o meu tio Oscar!". O agricultor Oscar Pierce era o tio, e jamais ganhou um prêmio por ter cedido seu nome, involuntariamente...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Quem cuida vive pensando

Profª Jane Haddad me perguntou pelo twitter: "@gperisse e a etimologia da palavra 'cuidado'? Preciso de uma luz, e quem foi o primeiro filósofo a falar sobre o cuidado (care)?"
Jane, talvez a etimologia nos leve ao primeiro filósofo-falante... ou ao primeiro falante, que certamente foi filósofo!
A nossa palavra "cuidado" procede do latim cogitare, "pensar", "conceber", "preparar". Passou por várias transformações. Em um dado momento, no antigo italiano, foi coitare. No português arcaico, tínhamos cuydar, provavelmente antecedido por um *cugitare. No antigo francês, existia o verbo cuider, hoje em desuso... talvez por descuido?

Indo mais longe, é preciso lembrar que o latim cogitare decompõe-se em co + agitare. Agitare era a insistência do agere ("agir"). Das tarefas mais físicas do agir chegou-se ao agir do espírito. A expressão agitare mente significava "mover no espírito", caminhar no pensamento, direcionar ideias, andando com elas.