terça-feira, 9 de abril de 2013

O tomate não tem preço

O tomate é contribuição da América pré-colombiana. A palavra vem do náuatle (idioma dos astecas) xitomatl, que significava "tomatl grande, inchado". Xitomatl e tomatl, na verdade, eram dois frutos diferentes. O segundo era pequeno e verde, e o primeiro, maior e de cor vermelha. Mas ambos entravam na categoria de tomatl ("fruta suculenta"), que incluía outros frutos.

Quando por aqui chegaram, no século XVI, os espanhóis chamaram os dois tipos com a mesma palavra tomate, difundindo o termo e o alimento pelo mundo afora. No início, porém, os europeus usavam o tomate mais para ornamentar seus jardins do que para incrementar seus pratos. Havia também botânicos e médicos que investigavam suas propriedades curativas.

Nos países de fala inglesa, a resistência ao tomate como item da culinária foi ainda maior. Até o século XIX dizia-se, nos Estados Unidos, que era venenoso. Talvez a prática de jogar tomates em artistas como forma de reprovação tenha nascido dessa crença equivocada. 

Devemos à Itália a redescoberta do tomate como alimento, novas formas de cultivá-lo, condicioná-lo, e seu retorno à América, quando grande número de imigrantes italianos veio para cá a partir do final do século XIX. Mas já o tomate ganhara entre eles outro nome, pomodoro, proveniente da expressão pomo d'amore, isto é, "fruta do amor", em virtude de supostas qualidades afrodisíacas.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Depois da cambalhota

A cambalhota tem um antes, um durante e um depois. Instabilidade, primeiro. No meio do processo, surpresa. De pé outra vez, novo modo de caminhar. O corpo realiza uma revolução: os pés por cima da cabeça para retomar o chão em renovado ímpeto.

"Cambalhota", escultura
em bronze de P. Koshland.
A palavra remete ao latim cambiare, "trocar", "alternar", "transformar". 
A cabeça troca de lugar com os pés, operando uma mudança de visão. Há registros do termo cambalhota em textos desde o século XVIII, mas cambalhotas sempre aconteceram e mudaram rumos pessoais e coletivos.

domingo, 10 de março de 2013

O papa e a fumaça

É muito provável que, nesta semana, conheçamos o novo sumo pontífice da Igreja católica. Os cardeais, reunidos, nos dirão quem será o sucessor de Bento XVI.

Os papéis da votação serão queimados e pela chaminé de quase dois metros instalada na Capela Sistina sairá, ou uma fumaça branca, quando o papa for escolhido, ou uma fumaça negra, em caso contrário.
Fumaça é vapor que exala de um corpo em chamas. Este sufixo -aça indica aumentativo. Trata-se, portanto, de um vapor que chama a atenção.

Remete ao latim fumus. Que, retrocedendo ao sânscrito, desvela um significado ligado à vida: dhumah traz a noção de vapor, mas também de respiração. (Quando faz muito frio, soltamos fumaça pela boca, não é?)

Em latim, fumarium era "chaminé". E onde há fumaça branca... há papa.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Entre meteoritos, asteroides e cometas

O céu manda recados: um meteorito ali... um asteroide passando por lá...

São considerados meteoros os fenômenos da atmosfera terrestre: vento, chuva, trovão, arco-íris, neve etc. Coisas para a meteorologia observar. Um meteorito é o fragmento de um meteoroide. Vemos aqui a presença do termo grego meteoros: "o elevado acima de nós".

Um asteroide é o que tem a forma (o sufixo "oide" vem do grego eidos) de uma estrela (em grego, aster).

E o que asteroides e meteoroides têm a ver com os cometas? Os cometas são corpos de fraca luminosidade que giram em torno do sol. Sua cauda luminosa parece uma cabeleira comprida, e é provocada pela radiação e pelos ventos solares. A palavra vem do grego cometes, "cabeludo".

Um asteroide pode ser, entre outras possibilidades, um cometa "cansado da vida", depois de ter esgotado seus componentes voláteis.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As raízes do sofrimento

Dizia o escritor francês Léon Bloy que "sofrer passa, mas ter sofrido não passa jamais". Diante das tragédias que o teatro do mundo oferece, ou dos dramas que ocorrem na minha vida, na sua, na vida das pessoas mais próximas, sofrer passa... mas nunca nos libertamos totalmente do sofrimento.

Em que medida a etimologia nos ajuda a entender essa realidade universal no tempo e no espaço?

Supõe-se que existia no latim vulgar a expressão *sufferere, que derivou do latim clássico sufferre, formado de sub- ("sob", "embaixo") e ferre ("levar", "conduzir"). O sofredor sente a dor sobre si. A ideia de estar sob a cruz, levando-a, é imagem recorrente: cada um tem de carregar sua própria cruz.
Estar submetido ao sofrimento é sentir-se por baixo, empurrado para o chão. É nestas horas incertas que valorizamos a presença dos que nos amam, e não temem se colocar sob a mesma dor, para nos ajudar a caminhar.

Ter sofrido é não esquecer a tristeza e a dor, mesmo quando já se diluíram no passado. Porque ainda carregamos a lembrança da dor, podemos ser solidários com quem está sobrecarregado.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Fique quieto, bicho-carpinteiro!

Foi com surpresa que ouvi um intelectual brasileiro afirmar, em um popular programa de tv, que a frase "estar com bicho-carpinteiro" ou "ter bicho-carpinteiro" seria proveniente de uma outra: "estar com ou ter bicho no corpo inteiro".
A pessoa irrequieta, que não consegue ficar parada por muito tempo, teria algum bicho dentro de si. Que bicho seria esse, não se sabe. Talvez uma lombriga que deixaria a criança agitada, pulando para lá e para cá?

No entanto, a expressão correta é esta mesma: a pessoa tem bicho-carpinteiro. Este escaravelho, em seu estágio larvar, corrói troncos e cascas de árvores com incrível persistência. Esse comportamento faz lembrar alguém que não sossega.

Reinaldo Pimenta, no primeiro volume de A casa da Mãe Joana (Editora Campus), afirma que a pessoa agitada pareceria alguém que "estivesse sendo roída por dentro por esse inseto". Mas então as árvores ficariam agitadas se houvesse dentro delas algum bicho-carpinteiro. Não é o caso.

A palavra bicho veio do latim vulgar *bestiu, que se refere à bestia do latim clássico, isto é, "animal". E carpinteiro remete ao latim tardio carpentarius artifex, o fabricante de um veículo de duas rodas, puxado por cavalos, o carpentum, em geral para uso de mulheres.

sábado, 8 de setembro de 2012

Etimologia encrenqueira

Às vezes, diante de certas hipóteses etimológicas, convém dizer que a origem é obscura, que os estudiosos ainda não chegaram a um acordo... Ou então pode dar encrenca!

Esta palavra, por exemplo, é atribuída pela jornalista canadense Isabel Vincent no livro Bertha, Sophia e Rachel: a sociedade da verdade e o tráfico das polacas nas Américas (Editora Relume Dumará, 2006) a um dizer em iídiche, “ein krenk” (“um doente”), que as prostitutas judias sussurravam entre si quando aparecia na zona um cliente suspeito de ter alguma doença venérea.

Para Márcio Cotrim, no seu livro O pulo do gato 2, quando alguma prostituta polonesa da zona do meretrício carioca estava com um cancro (doença venérea) alertava possíveis fregueses com a seguinte frase: "Ich habe ein Kranke", isto é, "Eu tenho um cancro".

O escritor e acadêmico Raimundo Magalhães Júnior, em seu Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos, afirma que "encrenca" veio da Argentina, uma gíria por sua vez proveniente do catalão enclenque ("deitado", "acamado por doença", "sem forças"). Etimólogos espanhóis ensinam que enclenque terá vindo de um distante cranc (provençal), significando "coxo" e "impotente".

Ao chegar em terras sul-americanas, enclenque arrumou alguma encrenca e assumiu os significados variados de "situação confusa", "dificuldade", "tumulto" ou "intriga".

Há ainda uma outra conjectura, defendida por Mansur Guérios em seu Dicionário de etimologias da língua portuguesa. Escreve ele: "Mais razoável é admitir um verbo hipotético no português *crencar (e daí com prefixo encrencar), continuador de um latim *clinicare que se basearia em clinicus, 'doente acamado'."

domingo, 2 de setembro de 2012

Uma questão de fé

Pelo formspring recebo uma pergunta sobre a origem da palavra "".

Podemos falar em  no sentido religioso, ou no sentido de confiança humana, quando dizemos que alguém é fidedigno, digno de (da expressão latina fide dignus).

Neste segundo sentido, uma pessoa falsa, que atua de má-, pratica a perfídia, palavra esta que provém de per fidem decipere: "abusar da confiança de alguém para enganar".


Já a virtude teologal da , segundo o pensamento cristão, é um ato de confiança sobrenatural em Deus, ou o próprio conteúdo em que se acredita, e daí a expressão "depósito da ". Do ponto de vista dos antigos romanos, fides não tinha, obviamente, esse valor transcendental, acrescentado pelos cristãos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Filho de coruja não tem pai?

O povo diz que "filho de coruja não tem pai", ou "coruja não tem pai". O pai tem vergonha de filho tão feio. Mas talvez no Dia dos Pais ele se arrependa e volte para o ninho!

No início deste blog, em 2010, postei algumas considerações sobre a mãe etimológica; agora é o momento de falar brevemente sobre a palavra "pai".

Presume-se que a criança pequena associa o som "pa" à presença do pai, em contraste com o "ma" (macio...) de sua mãe. Se a mãe está associada ao alimento que vem no mamilo (o leite), também o pai é visto como quem traz alimento ("papá" é comida, e em Portugal é o modo como se fala "papai"). Um alimento talvez mais sólido.

Os etimólogos lembram que a raiz "pá" do sânscrito, vinculada às ações de "alimentar", "dar comida" e "proteger", encontra-se na origem dessa história.

domingo, 22 de julho de 2012

Lutar com palavras

Leandro Paiva, leitor deste blog, escreveu: "Dedico boa parte do meu tempo à pesquisa sobre aspectos biológicos e culturais sobre lutas, tendo, inclusive, escrito um livro sobre o assunto. Estou em busca da etimologia, dentro do meu segmento, das palavras "lutas", "artes marciais" e "modalidades esportivas de combate". Poderia, por obséquio, me ajudar? Formalmente o citarei como referência. Atenciosamente, Leandro."


Caro Leandro, espero que a etimologia o ajude nessa luta com as palavras. 


Vejamos primeiramente "luta". Do latim, lucta tornou-se luita em português antigo e depois "luta". Significa "combate", "esforço", "empenho". A luta pode ser entre dois exércitos, duas pessoas, ou da pessoa consigo mesma para atingir algum objetivo.


Quando falamos em artes "marciais", estamos nos referindo ao deus Marte, o deus da guerra para os romanos. Tais artes estão relacionadas, portanto, ao espírito combativo e corajoso.


"Combater", em latim combattuere, nasceu da combinação de com e battuere. Lutar contra alguém é opor-se, bater-se com alguém, combater. A palavra latina battuere, além de "bater", tinha um significado no campo sexual: "ter relações com uma mulher". Isso explicaria o fato de "espada" e "trabuco", armas de combate, serem usados como sinônimos de pênis.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ah, moleque!

Pelo Facebook, Hugo Périssé me pergunta: "Gabriel, gostaria de saber a etimologia da palavra 'moleque'."


Meu caro Hugo, a palavra vem do quimbundo (língua falada em Angola) muleke, "garoto", "filho". Sobrepôs-se a "curumim", de origem indígena, com o mesmo sentido de "menino".


A palavra "moleque", no Brasil, ficou inicialmente associada ao filho do escravo, ao negrinho, e depois ao menino solto, malcriado, travesso. O preconceito promoveu a conotação pejorativa da palavra (com especial força nas discussões entre políticos), designando o adulto irresponsável, vagabundo, ordinário, canalha etc.


Curiosamente, "moleque", no português moçambicano, não significa "criança" nem "rapazote", mas "empregado doméstico" ou "lacaio".

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O ser da seriedade

Uma especulação etimológica intencionalmente brincalhona poderia sugerir uma relação entre o verbo "ser" e as palavras "seriedade" e "sério". De fato, a pessoa séria quer ser alguém, quer ser respeitada, tem densidade psicológica, ética e ontológica...


Fala sério! Tudo isso é brincadeira! Porque o adjetivo em questão vem do latim serius, "sério", "grave", "importante". Uma pessoa séria é alguém cuja palavra tem importância e peso. A seriedade está relacionada com a sisudez e com a gravidade, e com a consciência clara do que é honrado.


Um profissional sério cumpre seus deveres, pondera antes de agir, reflete antes de falar, é confiável. Roupas sérias são sóbrias, recatadas. Um problema sério merece especial atenção.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Uma rima não é boa pista etimológica

Circulam na web etimologias fantasiosas que nos fazem pensar (e divulgar!) que a palavra "aluno" tem a ver com "falta de luz", ou que "religião" remete à ideia de religação entre a terra e o céu. Semelhanças fonéticas não garantem verdades etimológicas.

Já li em mais de um lugar virtual que "mágoa" provém de "má água", uma água nociva, podre. Guardar mágoa seria reter na memória sentimentos que envenenam por dentro. Não quero magoar ninguém com esta postagem, mas apesar da sugestiva rima "água-mágoa" (que Chico Buarque canta em Gota d'água)... a conclusão etimológica é absolutamente falsa!

A palavra "mágoa" vem do latim macula, e inicialmente tinha o mesmo sentido da antiga palavra: "mancha", "nódoa", "erro", "defeito". No contexto cristão, significava "pecado": um bom cristão deve apresentar-se sem mágoa diante do tribunal de Deus...

"Mácula", com a mesma origem, contém esses mesmos significados ligados a impureza e desonra. (Basta lembrar que Maria Imaculada é aquela que jamais pecou pois nasceu sem mácula alguma.) O curioso é que "mágoa" foi mais além, e passou a designar também "desgosto", "tristeza", "amargura".

Uma pessoa magoada é aquela que sofre as consequências dos erros dos outros, das ofensas que outros lhe fizeram, dos equívocos alheios, das máculas produzidas pelo comportamento grosseiro de alguém.

sábado, 30 de junho de 2012

Coincidências e incoincidências


Semelhanças entre palavras não significam necessariamente origem etimológica comum. "Gregário" nada tem a ver com "grego" e "biscoito" não se refere a um "coito" duplo. Trata-se de coincidências incoincidentes...


Mas nem sempre é assim...


Outro dia, por exemplo, perguntaram-me se haveria alguma base etimológica que reunisse  "medicar" e "meditar". Quem medita de certo modo se medica? Para medicar é preciso meditar?


"Talvez haja alguma relação no que poderia ser mera coincidência", respondi. E fui pesquisar.


Existia no imaginário dos antigos romanos uma deusa das curas, Meditrina, em cuja festa (no dia 11 de outubro) tomava-se uma mistura de vinho novo e velho, dizendo-se as seguintes palavras: "vetus novum vinum bibo, veteri novo morbo medeor" — "bebo vinho novo-velho e de velhas-novas doenças estou curado".


O verbo medere ("curar") está ligado ao adjetivo medicus, que remete por sua vez à arte da medicina (com destaque para as intervenções cirúrgicas) e à arte de curar pela magia. A poção é medicamento ou algum preparado mágico. Medicar tem essa dupla face.


Haverá algum ponto de contato, uma coincidência semântica entre "meditar" e "medicar"?


Meditar (meditari em latim) é uma concentração cuidadosa do pensamento, um refletir profundo, um exercício interior. É tradução do verbo grego medomai. O curioso é que este verbo grego e o verbo latino medere provêm da mesma raiz indo-europeia *med-, vinculada a muitos e variados sentidos: "curar", "medir", "pensar", "governar", "considerar"...


Numa visão integradora de todas as dimensões humanas, a doença é a perda de equilíbrio da pessoa, que se compõe de corpo e espírito. Meditar é medicar-se na medida em que a busca da verdade nos faz retomar o caminho da vida saudável.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Lavoura dá trabalho!

Uma vez mais pelo formspring chegou-me uma pergunta etimológica. O leitor quer saber a origem e formação da palavra "lavoura".

A palavra remete ao latim labor ("trabalho", "esforço" e... "sofrimento"), que se transformou em *laboria no latim vulgar.

Trabalhar na lavoura, portanto, é atividade redundante. Todo esse esforço para preparar a terra, cultivá-la, pode ser visto como o trabalho humano por excelência. Laboriosus no antigo latim designava o sujeito que trabalhava muito. E, no antigo francês, laborer tinha, entre outros significados, os de "trabalhar" e "enfrentar dificuldades".

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O capim e a capivara

Pelo formspring me perguntaram sobre a origem da palavra "capim".


A palavra vem do tupi kapii. Compõe-se de kaá ("mato", "erva", "planta") + pii ("fino", "delgado"). 


Porque vive no meio do capim, a capivara assim se chama — kapii + uara ("senhor", "dono"). A capivara é dona do capim, e por isso dele se alimenta.

sábado, 28 de abril de 2012

O ócio do trabalhador

No ano passado, este blog comemorou o Dia do Trabalhador com uma postagem que explica a origem da palavra "trabalho". Para este ano de 2012, às vésperas do mesmo feriado, a pergunta é sobre a etimologia de "ócio", antônimo mais comum para "trabalho".


A palavra remete ao latim otium, presente na formação da palavra negotium, "ocupação", "negócio". Negotium é o "fazer", a negação do ócio. A partícula neg associada a otium confere à palavra "negócio" um sentido negativo. Bom mesmo é o ócio.


Ócio também lembra preguiça e moleza, mas o conceito original de ócio refere-se a uma ação positiva, em que o ser humano se dedica a fazer coisas que têm a ver com a sua essência: pensar, ler, contemplar a natureza, viver a amizade, praticar a virtude etc.


Negociar é tudo o que fazemos para, em dado momento, usufruirmos do ócio, vinculado à noção de felicidade e paz. Negotians (de onde vem o nosso "negociante") era, na antiguidade, o empreendedor, aquele que faz e acontece. Este fazer tem sempre um componente de intranquilidade.

domingo, 22 de abril de 2012

Dia da Terra

Hoje é o Dia da Terra. A palavra "terra" provém do latim terra, que significava "solo", "terreno", "território", mas também designava o planeta em que habitamos.


terra em que pisamos é o local seco, e portanto seguro, em oposição à água, em que afundamos. Isso nos faz pensar que vemos e denominamos o planeta do ponto de vista dos nossos... pés. Se fôssemos seres que vivessem dentro dos oceanos e dos rios, provavelmente nós o chamaríamos de planeta Água.


A palavra latina terra vem da raiz indo-europeia *ters-, com a noção de algo seco. Daí também o nosso verbo "torrar", que no latim era torrere, "secar", "tostar".

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Qual é o pente que te penteia?

Um leitor pergunta pelo formspring a origem do verbo pentear.


Quem penteia usa um pente para arrumar os cabelos. Seus dentes, próximos uns dos outros, presos a uma haste, simulam a mão e seus dedos tentando alinhar a cabeleira.

A palavra "pente" provém do latim pecten. O verbo pectinare tomou rumo curioso em terras francesas. Na França do século XVI havia uma peça de roupa chamado peignouoir, que se colocava sobre os ombros após o banho, e ali ficava enquanto os cabelos eram penteados (em francês, "pentear" é peigner). Era um manto "para (o uso de) pente". No século XIX, peignoir perdeu essa função e passou a designar vestimenta feminina caseira usada sobre a roupa de dormir.

Antigos dicionários da língua portuguesa associam "pentelho" a "pente". O acréscimo do sufixo -elho indicaria diminutivo. Como a palavra nasceu nas ruas, os acadêmicos não sabem explicar a exata relação entre uma e outra.

sábado, 14 de abril de 2012

Tire a mão da minha emancipação!

Conversando com um amigo sobre o tema da liberdade, surgiu a pergunta: qual a origem da palavra "emancipação"?


Na antiguidade romana, um senhor podia emancipare (libertar) um escravo. A palavra era composta pelo prefixo ex (indicando a ideia de "saída" ou de "retirada"), pelo substantivo manus ("mão", simbolizando poder) e pelo verbo capere ("agarrar", "pegar").


Emancipar é "retirar a mão que agarra", é abrir mão do poder sobre alguém. E emancipar-se será, portanto, dizer a quem nos oprime: "tire a sua mão de cima de mim!".

sábado, 7 de abril de 2012

O cordeiro pascal

Quando, antes de morrer, Jesus celebrou com seus discípulos a ceia pascal (principal festa judaica), reinterpretou os elementos tradicionais da refeição sagrada (cordeiro, pão e vinho), criando a ceia da nova aliança: o cordeiro é o próprio Jesus, vítima escolhida para obter as bênçãos divinas, o pão é seu corpo e o vinho, seu sangue.


A palavra "cordeiro", do latim vulgar *cordarius, refere-se ao adjetivo latino cordus, "nascido tardiamente", "novo". O agnus cordus não tinha completado um ano de vida. Era o cordeiro novo, ou seja, puro, inocente.


Associando-se à figura do cordeiro de Deus, Jesus assumia a história e a simbologia do povo escolhido, levando-as mais longe do que qualquer um poderia imaginar. A Páscoa cristã realiza e ao mesmo tempo transcende a Páscoa judaica.


Aproveito a ocasião para desejar aos leitores deste blog uma Feliz Páscoa, e que a etimologia ressuscite em nós os significados de muitas palavras!



sábado, 31 de março de 2012

A verdadeira mentira

Qual a origem etimológica da palavra "mentira"?


Os estudiosos se referem à palavra *mentionica, do latim tardio do século XI, que por sua vez teria vindo do baixo latim mentire, remetendo ao latim clássico mendacium, termo ligado à palavra mens.


A palavra mens está na raiz da mentira. Mens significa "mente", "inteligência", "discernimento", o que poderia nos fazer concluir que o mentiroso precisa ter uma boa cabeça. Um mentecapto não sabe mentir.


Mas há ainda um significado especial para mens — "intenção". O que tem em mente o mentiroso ao lançar mão da mentira? A verdadeira mentira jamais acontece por inadvertência ou em nome de boas intenções. É fruto de uma vontade empenhada em enganar.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O pio da coruja

Chegou pelo formspring uma difícil pergunta: "de onde vem a palavra 'coruja'?".


É aquela típica palavra que gera perplexidade, ou boatos etimológicos, pois não há registros que garantam que esta ou aquela resposta é a certa.


Tal obscuridade com relação à origem da palavra teria a ver com os sentimentos que esta ave desperta em nós, com seu piar agourento, ave de voo silencioso, cujo olhar tem assustado o ser humano há séculos?


Tem nos assustado e atraído, como sempre. Perde-se no tempo a crença de que comer carne de coruja transmite poderes divinatórios, faz a mente humana abrir-se. A coruja está ligada ao medo da morte, e ao amor pela sabedoria.


A hipótese mais provável é a de que a palavra tenha origem onomatopaica. No latim medieval haveria um curugia, em que os "us" repetiriam o prolongado "u, u, u" da ave. Isso também ocorreria em outros idiomas. "Coruja" em francês é hibou, em espanhol é búho, em italiano é gufo, sempre o som "u" em destaque.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O gosto etimológico da mortadela

Um leitor deste blog, usando o formspring, pergunta pela etimologia de "mortadela", espécie de salame feito à base de carnes bovina e suína. 


A palavra nasceu do italiano mortadella, proveniente do diminutivo murtatela, derivada por sua vez do latim murtata: "temperada com bagas de murta". A murta, arbusto mediterrâneo (associado a usos medicinais e cerimônias sagradas), possui bagas carnosas que servem como tempero.


A título de curiosidade, há uma falsa (e engraçada) hipótese de que "mortadela" tem a ver com "martelada". Em se tratando de mortadela bovina, a hipótese remete ao abatimento do boi, cuja morte é provocada por "marteladas" na região dorsal.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Como age o proativo?

Pelo formspring, recebo uma consulta sobre a etimologia da palavra "proatividade".


O proativo é aquele que age de um modo eficaz. Não reage apenas. No mundo do trabalho, é o profissional que se antecipa às dificuldades. Quem reage fica, passivo, à espera de estímulos e comandos externos. O proativo planeja, pensa por conta própria, e vai à frente.


Trata-se de um anglicismo (proactive) que está se abrasileirando desde a década de 1990. A reação é uma ação que recusa ou se opõe a outra. A ação gera uma reação. O prefixo re- (de origem latina) indica, neste caso, uma força contrária.


No caso da proatividade, quem age toma a iniciativa, age primeiro, surpreende. O prefixo vem do advérbio grego pró, no sentido de "antes". O prólogo, por exemplo, é o que se escreve antes. O proativo é aquele que age antes dos outros.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Comporte-se!

Guilherme da Silva Caspar, leitor deste blog, perguntou-me pelo formspring


Recentemente, ouvi que a palavra "comportamento" decorre da junção do prefixo "com" e do verbo "portar" mais o sufixo "-mento". Isso procede? Desde já, muito obrigado.


De fato, o sufixo -mento (do latim vulgar -mentu) está presente na palavra "comportamento", indicando ação ou resultado de ação. Se "agradecimento" resulta do agradecer, o "juramento" do jurar e o "atrevimento" do atrever-se, o "comportamento" tem a ver com a maneira pela qual uma pessoa se porta com os outros, isto é, como atua socialmente.


A palavra latina comportare significava "transportar coisas para um mesmo lugar", "reunir", "colecionar", "amontoar". Um comportamento pode ser visto como a reunião de gestos e palavras. Agimos e reagimos na vida social o tempo todo. Esse conjunto de ações e reações (envolvendo discurso, vestimenta, postura física etc.) configura a conduta de cada um.


O comportamento social pode ser adequado ou inadequado. Quando adequado, faz-nos pensar em concordância. Uma pessoa que se comporta como os outros querem e esperam, adapta-se às regras sociais. Este sentido estava presente na palavra comporter, no francês do século XIV.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cinzas nesta quarta

Nesta Quarta-feira de Cinzas, os católicos participam de uma cerimônia em que se lembram de que as coisas se acabam. O Carnaval da existência tem fim. Tudo vira cinzas, pó.


No latim vulgar, *cinisìa significava "cinzas misturadas com brasas". As coisas são incineradas, reduzidas a cinzas. Quando um cadáver é cremado, é reduzido a cinzas. Cremare, em latim, é "queimar". A cada dia vamos nos consumindo no fogo da vida.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A etimologia dos eventos

Para a etimologia dos eventos, um congresso é diferente de um simpósio, e um seminário não se confunde com um encontro ou com uma jornada.

No congresso, do latim congredior, as pessoas se dirigem para o encontro (às vezes para o confronto...). Se progredir é ir em frente, se regredir é ir para trás, e se transgredir é ir além, congregar-se é "ir com".

No simpósio, temos o grego symposion, em que também se fala de uma reunião: syn- ("união") + pósis ("ação de beber"). Beber juntos a sabedoria. É este o objetivo dos simposiastas: embriagar-se de conhecimento.
No seminário, as sementes (semen, em latim) são plantadas. O sentido de "escola preparatória de sacerdotes" foi registrado pela primeira vez em fins do século XVI. Academicamente, o seminário é a ocasião para ideias e argumentos germinarem.

No encontro para pensar e aprender há, em princípio, boa vontade e espírito de colaboração, mas a palavra incontra, no latim tardio, possuía conotação de confronto, remetendo a uma luta entre adversários.

Na jornada, a ideia etimológica é que os participantes trabalhem durante um dia, entre o nascer e o pôr do sol, em busca do conhecimento. No antigo francês, journee (século XII), do latim vulgar *diurnum ("dia").

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O que se forma na informação?


Recebi o seguinte e-mail de Douglas Pitombo da Silva:

Olá Prof. Gabriel Perissé,gosto muito do seu trabalho e acredito que saber/pesquisar a origem das palavras, o seu real significado, nos leva a entender o que de fato nós somos. Sou aluno de graduação da UnB do DF, faço atualmente o curso de arquivologia, porém já cursei filosofia. Daí sendo o meu curso atual da área da Ciência da Informação, gostaria de saber qual é a origem da palavra "informação"? E se possível, se o sr. poderia me dizer qual é a relação dela com a realidade e a verdade, se cabe a nossa interpretação ou se ela "basta por si só", ou seja, se ela é objetiva ou subjetiva? Sei que essa pergunta tem um tom de caráter filosófico, mas gostaria de saber a opinião do sr.Obrigado pela atenção.

Prezado Douglas, a etimologia não busca exatamente o real significado das palavras, mas os muitos significados, dando ênfase aos que estão perdidos nas brumas do passado. A informação etimológica é objetiva e subjetiva, porque se apoia em pesquisa de documentos (objetividade) e em interpretação das pesquisas (subjetividade).

Esta consideração vale para outros tipos de informação, como a jornalística e a histórica. A informação nos chega aos ouvidos, mas nossa recepção é ativa, interpretativa.

A palavra provém do latim informare e significava, originariamente, "dar forma", "fabricar", "modelar". A evolução semântica que nos levou a pensar em "noticiar", "avisar" e "instruir" deu-se a partir da Idade Média. Mas antes disso a ideia estava esboçada.


É que dar uma informação de certa maneira "modela" o informado. Quando sabemos de algo, esse algo atua sobre nós, e nos forma... ou deforma.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A etimologia na cracolândia

Tem uma pedra mortal no meio do caminho. Tem uma pedra mortal no meio do caminho de tantas pessoas, no meio das ruas, no centro da cidade. Tem uma pedra que se chama crack.


O viciado em crack, se não abandonar a pedra, viverá cerca de 5 anos. Ou bem menos. A palavra inglesa "crack" ("estalo" e "rachadura" são os significados tradicionais, com clara motivação onomatopaica) assumiu a acepção de "droga" no início da década de 1980, nos Estados Unidos. No Brasil, na década de 1990, já era comum se ouvir o termo "craqueiro".


"Cracolândia" é gíria que define local onde os viciados em crack compram e consomem a droga como se estivessem num território soberano, um "país do crack", ou a "terra do crack".


Como droga, usamos "cracksem traduzir, talvez pelo receio de que se misture com outros usos, para os quais já houve aportuguesamento: no esporte (o craque quebra a monotonia do jogo) e na economia (com relação à "quebra de 1929").


No caso da droga, a palavra "crack" também se impôs pela onomatopeia, por causa do som que se escuta quando a pedra é fumada.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Do Oriente ao Ocidente

Para começar o ano, consulto questões que me aguardam no formspring. Um leitor deste blog faz três perguntas: "Qual é a origem da palavra oriente? E qual é a sua relação com a palavra orientar? Qual é a origem da palavra ocidente?".


Em latim, oriens refere-se à parte do céu onde o sol se levanta. Orientar-se ("dirigir-se para o Oriente, para o leste") é uma noção que se firmou entre os séculos XVIII e XIX. A frase "a luz vem do Oriente" tem sentido religioso: os ocidentais procuram a luz espiritual em Israel, no Egito, na Índia e no Japão.
O Ocidente, em oposição, é onde o sol se esconde. Remete ao verbo latino occidere ("cair", "acabar", "morrer"). Em sentido oposto ao "orientar-se" (em busca de caminhos de vida), o "ocidentar-se" indicaria um caminhar para o ocaso.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Caras e caretas

Alguns jornais e portais deram destaque, hoje, ao filho do senador Jader Barbalho. O menino Daniel, de 9 anos, estava na posse do ilustre político, que depois de ter enfrentado a Lei da Ficha Limpa, foi agora reconduzido à cena com 1,7 milhão de votos.

Mas quem roubou a cena mesmo foi o filho, cujas caretas estão nas primeiras páginas, por exemplo, do O Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo.

A palavra "careta" é uma "cara" especial. No grego, kára significava "cabeça" ou "cimo" (de árvore ou montanha). Especula-se que a palavra "crânio" ("parte superior, protegendo o encéfalo"), que nos chegou pelo latim medieval *cranium, está relacionada com a mesma palavra grega kára.

Com o tempo, o sentido concentrou-se na parte anterior, na face, de animais e homens, e ao mesmo tempo assumiu todo o indivíduo — falamos daquele cara (uma pessoa indeterminada), ou elogiamos alguém e o destacamos da multidão dizendo que ele é "o cara"!

Ao acrescentar o sufixo -eta à "cara", não pensamos que é uma cara pequena, como em "faceta", mas que é uma cara expandida. O sufixo acaba significando o contrário do habitual — "estatueta" ("estátua de pequenas dimensões"), "banqueta" ("pequeno banco") etc.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

De onde vem a massagem?

A massagem vem do Oriente (China, Índia, Arábia, Egito...), e a palavra chegou até nós pela França. No século XIX, começou a circular a palavra "massage", como fruto da expedição científica e militar ao Egito (entre 1798 e 1801), organizada por Napoleão Bonaparte. A inspiração, segundo alguns etimologistas, vem do verbo árabe mass ("tocar com suavidade"). Outros pesquisadores mencionam o verbo arábico mássah ("friccionar").

Outra possibilidade é que a mesma palavra francesa tenha surgido do português "amassar", com esse sentido de massagear, mas agora com base nas experiências dos portugueses na Índia. A palavra remetendo ao latim massare ("apalpar"), e, mais longinquamente, ao radical indo-europeu *-mag ("comprimir com as mãos").

Contudo, há ainda uma terceira possibilidade etimológica. O francês massage teria vindo do antigo francês masse ("clava"), derivado por sua vez do latim vulgar *mattea, indicando o cabo de enxada. Neste caso, o movimento massageador guardaria alguma semelhança com o modo de mexer e cutucar a terra.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nuvem de palavras

Depois de um ano e meio de blog etimológico, com um total de 173 postagens, uma nuvem de palavras retrata o trabalho desenvolvido aqui.
Que "palavra" e "verbo" sejam as mais citadas não surpreende. Chamam a atenção "futuro" e "criança", o que faz pensar como o estudo do passado e das origens não nos afasta do porvir. Esse porvir que, literalmente, está "por vir".

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O rei da região

Recebi pelo formspring uma consulta sobre a origem de "região".

A palavra designa um território delimitado, mas não arbitrariamente. Uma região possui características que a distinguem de outras. No entanto, alguém precisa estabelecer quais são as fronteiras dessa região, regular (no latim, regere) seus limites.

O verbo regere está na origem também das palavras "rei" e "regra". Reinar é dirigir, criar regras (para que os outros andem na linha reta...), encaminhar outras pessoas, ter o comando, saber a direção. Quem define uma região demonstra possuir conhecimento e poder.

domingo, 6 de novembro de 2011

Quem ocupa se preocupa?

O movimento Occupy Wall Street é (foi) preocupante? E preocupante para quem? Parece que a ideia está ocupando a cabeça de muitos mundo afora.

A palavra "ocupar" vem do latim occupare, formado pelo prefixo ob- e o verbo capere, que nos remete a vários significados: "pegar", "apanhar", "capturar", "apoderar-se", "conquistar". A expressão latina "occupare regnum" significava "fazer-se rei".

Quem ocupa (um espaço, uma casa, uma rua, um terreno, um país) toma posse de algo que está à sua frente. Quem ocupa tem muito de invasor, mas também, do ponto de vista positivo, manifesta iniciativa, e uma certa dose de coragem. Podemos dizer que as terras brasileiras no século XVI foram ocupadas pela Europa. "Descoberta" é eufemismo.

A propósito, nos ambientes ingleses dos séculos XVI-XVII, usava-se occupy como eufemismo de "fazer sexo".

A palavra "preocupação" já significou uma ocupação antecipada. O preocupado era aquele que, por ser mais capaz, ocupava primeiro!

Mas talvez porque aquele que estava se preparando para ocupar algo antes dos outros ficava muito ansioso e inquieto, a preocupação acabou se transferindo (lá pelo século XVII) do ato externo para o interno. Preocupado é aquele que, na verdade, é invadido por pensamentos perturbadores.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tudo é futuro

A palavra "futuro" é tudo o que temos pela frente. E futurar talvez seja a ação mental mais constante (e inconsciente) — estamos sempre tentando prever e predizer o que acontecerá.

No latim, futurus é o particípio futuro de esse (verbo "ser"). Significa "aquilo que há de ser". O futuro corresponde, literalmente, ao porvir, ao que será.

domingo, 9 de outubro de 2011

A presença da criança

A presença de uma criança deveria mudar a atmosfera. A criança dentro do ventre, nos braços da mãe, a caminho do mundo deveria nos fazer pensar melhor. E agir melhor.

A palavra se forma com o verbo "criar" e o sufixo "-ança", indicando a ação que resulta do criar e do nutrir. A ama que amamentava crianças alheias era chamada "criadeira". A criança bem-criada é aquela que recebe boa alimentação, boa educação, carinho, atenção. Não só um dia, mas durante todos os dias da infância. 

domingo, 2 de outubro de 2011

Perigosa transparência

Exigimos que as pessoas sejam mais transparentes, que o governo tenha compromisso com a transparência, queremos que "as coisas nos ministérios", como disse um político, "possam ocorrer com a máxima transparência"...

Perigosa transparência! Etimologia que avisa amiga é. O que podemos ver se tudo estiver excessivamente transparente? A palavra chegou até nós pelo francês transparent, devedor do latim medieval transparens, em que temos a preposição trans- ("através de") e o particípio presente parens, de parere ("aparecer").
Inicialmente, na transparência, a luz passa através, permitindo ver o que, na opacidade, fica oculto. Contudo, essa ênfase excessiva, obsessiva, à transparência, tal excesso de luz... pode levar a uma nova invisibilidade. Uma ação tão transparente se tornará imperceptível...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O comerciante e suas mercadorias

Pelo formspring, recebi pergunta sobre a origem da palavra "comerciante".

No latim tardio, *commerciare designava a ação de negociar mercadorias. Remete ao latim clássico mercor, "adquirir por dinheiro", "negociar", relacionado a merx, "mercadoria". O mercenário é uma espécie de comerciante, por vender sua capacidade de lutar como mercadoria. Na mercearia, vendem-se mercadorias. O mercado é o espaço público em que se realizam atos de compra e venda.

Alguns etimólogos veem ligação de merx com o nome do deus romano Mercúrio, que protegia as relações comerciais e recebia especial devoção por parte dos comerciantes.