domingo, 26 de setembro de 2010

O camelo hiperbólico

Chegou a este blog uma pergunta mencionando São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, santo que os católicos homenageiam no mês de setembro: "Já que está falando de religião, por acaso houve erro na tradução de São Jerônimo na expressão bíblica 'é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, do que...' ou 'camelo' está errado e deveria ser 'corda' (do grego)?"

De fato, surgiu uma polêmica em torno dessa passagem, em que Jesus afirma não terem os ricos a menor chance de entrar no reino de Deus. Seria tão impossível quanto um camelo passar pelo buraco da agulha (cf. Mt 19:23-30; Mc 10:23-31 e Lc 18:24-30).

Conforme alusão de Deonísio da Silva em seu A vida íntima das frases (Novo Século, 2009), foram levantadas duas hipóteses com relação à tradução, tornando a frase menos exagerada... hipóteses que na verdade se opõem.

Teria havido, no texto grego, uma troca entre kamelos ("camelo") e kamilos ("corda grossa", "calabre"). A própria palavra do aramaico utilizada por Cristo carregaria ambiguidade — gamla ("camelo") e gamala ("corda grossa").

Além de parecer mais lógico (afinal, o que teria um camelo a ver com agulhas?), a imagem da corda grossa permitiria uma saída para os ricos, como nos conta João Ribeiro no livro Frazes feitas (Francisco Alves, 1908). Segundo interpretação mais liberal, o calabre poderia passar pelo fundo da agulha, contanto que fosse desfiado. Passaria fio por fio, exigindo paciência e esforço.

Numa segunda hipótese, que suavizaria também a frase evangélica e daria uma chance aos ricos, diz-se que o "olho da agulha" era o nome de uma por­ta estrei­ta à entrada de Jeru­sa­lém. Se o camelo inclinasse a cabeça (sinal de humildade...) ou se deixasse cair por terra boa parte da carga (desprendimento...), poderia atravessá-la.

Não é possível aceitar as duas hipóteses ao mesmo tempo. Ou o camelo é uma corda ou a agulha é uma porta. Ambas parecem mais sensatas do que a hipérbole patente no texto em latim: "Facilius est camelum per foramen acus transire, quam divitem intrare in regnum Dei" (Mt 19:24). A tradução: "É mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha do que o rico entrar no reino de Deus."

Camelo atravessando
o buraco da agulha
graças ao dinheiro,
de Eric Angeloch

As duas hipóteses, no entanto, carecem de fundamentos mais sólidos. Analisar o texto evangélico requer contextualizações linguísticas, culturais e teológicas. O "rico", para Cristo, era todo aquele que confiava nos bens materiais mais do que em Deus. O camelo tentando passar pelo buraco da agulha é hipérbole humorística. O exagero desmonta a ideia dominante de que os bens materiais, muitos ou poucos, garantem algum tipo de salvação. Essa presunção e essa arrogância são perigoso caminho. Impossível entrar no âmbito divino sem a riqueza espiritual.

De mais a mais, não se trata de frase absurda para os ouvintes orientais. Basta lembrar passagem semelhante no livro sagrado dos muçulmanos (Alcorão 7:40): "Aqueles que desmentirem os Nossos versículos e se ensoberbecerem, jamais lhes serão abertas as portas do céu, nem entrarão no Paraíso, até que um camelo passe pelo buraco de uma agulha."

Entre os judeus, é conhecida a passagem no Talmude em que, para definir uma coisa impossível, fala-se de um elefante atravessando o orifício da agulha (cf. Tratado Berachot 55b).

10 comentários:

Solineide Maria disse...

Que coisa rica professor!

Lineu de Paula Nogueira disse...

Quando estava na escola no primário,em uma escola de origem alemã, alguem comentou sobre a corda de amarrar navios que era muito grossa e forte, e o nome dela seria "camelo".
Sem nenhum estudo sobro o que a Biblia diz em
Mateus 19 : 24, logo pela primeira vez que ouvi ou lí esse versículo, entendi que seria essa corda que Jesus estava se referindo.
O seu parecer nesse estudo, está, a meu ver, muito bom. Parabens.
Lineu

Achilles Christiano disse...

Com respeito ao tal de Kamilos, creio piamente, embora seja impossível de se afirmar, que a palavra correta seja a tal corda grossa, mas aqui ocorre um estranho precedente, Cristo existiu, ainda bem que não mexeram nas teias de aranha que envolvem as pipas, afinal o vinho tem que envelhecer naturalmente, sem que ninguém se atreva a toca-lo

Capoeira disse...

Realmente não é fácil aceitar a parte que Fundo de Agulha seria uma porta estreita no muro de Jerusalém, uma vez que os muros eram justamente proteção e qualquer brecha, seria passível de invasão inimiga, dado que até as brechas foram reparadas na época de Esdras.
A corda de amarração de navios, é a mais sensata.

Carlos Carrion disse...

Muito bom, não tenho mais palavras a dizer, agradeço a você por ter postado algo tão esclarecedor. Os "ricos" vão sentir menos peso na consciência... você fez uma boa pesquisa, explicou muito bem... as palavras de Jesus não podem ser levadas ao pé da letra, devem ser estudadas em detalhes. Vou publicar no meu blog e citar a origem.

Karicaturista Gom's disse...

As palavras gregas para corda (ká·mi·los) e camelo (ká·me·los) são muito similares, e tem-se sugerido que houve uma confusão entre as duas palavras gregas. É digno de nota, porém, que A Greek-English Lexicon (Um Léxico Grego-Inglês, de Liddell e Scott, revisado por Jones, Londres, 1968, p. 872) define ká·mi·los como “corda”, mas adiciona que provavelmente foi cunhada como emenda da frase: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”, indicando assim que no texto grego original constava ká·me·los (Animal), em vez de ká·mi·los.(Corda)

Nos mais antigos manuscritos gregos existentes do Evangelho de Mateus (o Sinaítico, o Vaticano N.° 1209 e o Alexandrino), consta a palavra ká·me·los.(Animal) Mateus escreveu seu relato sobre a vida de Jesus primeiro em hebraico, e então ele mesmo talvez o traduzisse para o grego. Portanto, ele sabia exatamente o que Jesus disse e pretendia dizer. Assim, sabia qual era a palavra correta, e a palavra usada nos mais antigos manuscritos gregos existentes era ká·me·los. Portanto, há boa razão para se crer que a tradução correta é ao animal camelo e não a uma corda grossa”.

Karicaturista Gom's disse...

Por meio desta hipérbole, que não se destinava a ser tomada literalmente, Jesus salientou que, assim como não era possível um camelo literal passar pelo orifício duma agulha literal, era ainda menos possível que um rico entrasse no Reino de Deus, enquanto continuasse a apegar-se às suas riquezas.
Em sua condenação dos fariseus hipócritas, Jesus falou de ‘coarem o mosquito, mas engolirem o camelo’. Esses homens costumavam coar o mosquito de seu vinho, não só por ser um inseto, mas por ser cerimonialmente impuro; todavia, figuradamente, engoliam camelos, que também eram impuros. Ao passo que insistiam no cumprimento do mínimo dos requisitos da Lei, despercebiam inteiramente os assuntos de maior peso — a justiça, a misericórdia e a fidelidade. — Mt 23:23, 24.

Joao Faria disse...

Karicaturisra Gom's.
Parabéns está correta sua observação.

Joao Faria disse...

Karicaturisra Gom's.
Parabéns está correta sua observação.

Joao Faria disse...

Karicaturisra Gom's.
Parabéns está correta sua observação.