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domingo, 13 de abril de 2014

A cruz crucial

A impiedosa tortura e morte lenta de alguém pendurado numa estaca era prática conhecida desde o século VI a.C. entre povos asiáticos. Os romanos a aprenderam e adotaram. Escravos rebeldes, traidores e ladrões eram punidos assim. Jesus Cristo é o mais conhecido dentre os que padeceram o suplício da cruz. Até hoje, em alguns lugares do mundo como Arábia Saudita, Irã, Birmânia e Sudão, crucificar alguém é, na melhor das hipóteses, uma possibilidade prevista em lei.
A Crucifixão (detalhe),
de Matthias Grünewald (século XVI)
A palavra crux, em latim, não se referia estritamente à cruz como a visualizamos hoje (dois toros transversais) e que se tornou o símbolo maior do cristianismo.


Crux immissa ou cruz latina
Havia tipos diferentes de cruz. Uma primeira diferença existia entre a crux simplex e a crux compacta. No primeiro caso, tratava-se de um objeto vertical de madeira, uma viga, ou mesmo um tronco de árvore. O condenado era amarrado com cordas nessa cruz, ou nela empalado.

Já a crux compacta podia ser decussata (em forma de X), commissa (em forma de T) ou immissa (a chamada "cruz latina", cuja travessa fica acima da metade da haste). Esta, a immissa, é a que conhecemos como sendo a cruz em que Jesus (cordeiro pascal) foi pregado.

Especula-se que a palavra latina crux (passando pela forma colux) veio do termo grego σκόλοψ (skólops), que significava "estaca", "enxadão", "cruz" e outros tipos de objetos que pudessem provocar uma dor pungente.

sábado, 15 de março de 2014

Ansiedade em qualquer idade

Entre as doenças candidatas a definirem o perfil patológico do século XXI está a ansiedade. Livros com essa palavra tendem a ser ansiosamente comprados. Esperamos com ansiedade que nos digam, o mais rápido possível, o que fazer para não ficarmos ansiosos... Sentimos a ansiedade presente em toda parte e em gente de todas as idades.

Um piadista me dizia outro dia: "Se você não tem ansiedade provavelmente há algo de muito errado com a sua saúde!". Mas a palavra, tão frequente hoje, de hoje não é. O poeta latino Ovídio (43 a.C. - 17 ou 18 d.C.) conhecia a anxietas animi, a preocupação profunda e angustiante, que torna  a alma pesada... e a vida mais atrapalhada do que já é.

No latim, anxietas remete ao verbo angere: "apertar", "espremer". A ansiedade provoca um aperto interior. A mente se sente esprimida. O coração comprimido. Dores por dentro e por fora se multiplicam. E o motivo, em geral, tem a ver com as incertezas do futuro. Ficamos ansiosos quando antevemos e antecipamos os maiores problemas. Inclusive aqueles que são gerados pela própria ansiedade!

Remontando à raiz indo-europeia *angh-, vamos encontrar a origem das noções físicas e anímicas relacionadas a este cúmulo de sofrimentos. No latim, as angustiae são os desfiladeiros, que nos deixam nervosos só de imaginar... E as aflições morais estão na mesma categoria do mundo estreito e sufocante.

É por isso que o melhor mesmo é relaxar... No latim, relaxare indicava o ato de soltar, livrar alguém da dor.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As raízes do sofrimento

Dizia o escritor francês Léon Bloy que "sofrer passa, mas ter sofrido não passa jamais". Diante das tragédias que o teatro do mundo oferece, ou dos dramas que ocorrem na minha vida, na sua, na vida das pessoas mais próximas, sofrer passa... mas nunca nos libertamos totalmente do sofrimento.

Em que medida a etimologia nos ajuda a entender essa realidade universal no tempo e no espaço?

Supõe-se que existia no latim vulgar a expressão *sufferere, que derivou do latim clássico sufferre, formado de sub- ("sob", "embaixo") e ferre ("levar", "conduzir"). O sofredor sente a dor sobre si. A ideia de estar sob a cruz, levando-a, é imagem recorrente: cada um tem de carregar sua própria cruz.
Estar submetido ao sofrimento é sentir-se por baixo, empurrado para o chão. É nestas horas incertas que valorizamos a presença dos que nos amam, e não temem se colocar sob a mesma dor, para nos ajudar a caminhar.

Ter sofrido é não esquecer a tristeza e a dor, mesmo quando já se diluíram no passado. Porque ainda carregamos a lembrança da dor, podemos ser solidários com quem está sobrecarregado.