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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Uma rima não é boa pista etimológica

Circulam na web etimologias fantasiosas que nos fazem pensar (e divulgar!) que a palavra "aluno" tem a ver com "falta de luz", ou que "religião" remete à ideia de religação entre a terra e o céu. Semelhanças fonéticas não garantem verdades etimológicas.

Já li em mais de um lugar virtual que "mágoa" provém de "má água", uma água nociva, podre. Guardar mágoa seria reter na memória sentimentos que envenenam por dentro. Não quero magoar ninguém com esta postagem, mas apesar da sugestiva rima "água-mágoa" (que Chico Buarque canta em Gota d'água)... a conclusão etimológica é absolutamente falsa!

A palavra "mágoa" vem do latim macula, e inicialmente tinha o mesmo sentido da antiga palavra: "mancha", "nódoa", "erro", "defeito". No contexto cristão, significava "pecado": um bom cristão deve apresentar-se sem mágoa diante do tribunal de Deus...

"Mácula", com a mesma origem, contém esses mesmos significados ligados a impureza e desonra. (Basta lembrar que Maria Imaculada é aquela que jamais pecou pois nasceu sem mácula alguma.) O curioso é que "mágoa" foi mais além, e passou a designar também "desgosto", "tristeza", "amargura".

Uma pessoa magoada é aquela que sofre as consequências dos erros dos outros, das ofensas que outros lhe fizeram, dos equívocos alheios, das máculas produzidas pelo comportamento grosseiro de alguém.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Adolescentes, adultos e adjacências

Um leitor do blog perguntou sobre a origem da palavra "adolescente" e um amigo, sobre as raízes de "adulto". As duas palavras têm parentesco entre si.
O verbo latino adolescere refere-se ao que cresce e amadurece. O adolescente está em processo de crescimento. Nada a ver com "doença", como alguns inventaram. Ao contrário. O termo latino carrega em si os verbos alere ("alimentar") e alescere ("começar a se alimentar"), em consonância com "aluno", ou seja, aquele que é alimentado.

O adulto é o adolescente que amadureceu. Que já adolesceu, no sentido de ter ultrapassado a fase de crescimento, em geral quando se chega aos 21 anos.

A partir da década de 1950, a palavra "adulto" começou a ser empregada em expressões como "literatura adulta" e "filme adulto", associadas a algo indecente ou pornográfico. O que é curioso, porque os maiores interessados nesse tipo de literatura e cinema são os adolescentes e não os que já amadureceram realmente.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Etimoludia

Na edição de maio da revista Caros amigos, Marcos Bagno escreveu sobre etimologia. Afirmando que etimologia não é uma brincadeira qualquer. E que precisamos tomar cuidado com as informações pseudoetimológicas que pululam por aí, como dizer que "aluno" significa "sem luz" ou que "adolescente" tem a ver com "doença".

Ele está coberto de razão. E para denunciar as falsas origens etimológicas criou um termo: a "etimoludia". Em cuja formação temos a presença de étymon (do grego, "verdadeiro", "real", "certo") e de ludus (do latim, "jogo", "divertimento", "zombaria").

A etimoludia seria o exercício frívolo ou trapaceiro de quem não respeita o verdadeiro estudo da verdadeira origem das palavras.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Etimologia na escola

O leitor Marcos, do Rio de Janeiro, perguntou: "Prof.Gabriel, gostaria, se possível, de que comentasse sobre a origem de algumas palavras. São elas: 'educação', 'escola', 'aula', 'professor' e 'aluno'. Grato!"

Marcos, você já pode ler no blog a origem da palavra "professor". Quanto a "aluno", procede do verbo latino alere, referente à alimentação, ao sustento e ao crescimento. O aluno se nutre das palavras do professor, ou de um livro, ou de um site, um documentário etc., assimilando e transformando em conhecimento próprio tudo o que ouve, vê e experimenta.

"Educação" é verbete no meu livro Palavras e origens, e lá eu explico que ducere, em latim, com o sentido de "trazer", associado a ex ("fora") indica que educar é "conduzir para fora". Podemos especular que seja um conduzir o aluno para fora de si mesmo em direção à sociedade, ao mundo. Outra possibilidade é pensar a educação como um processo que traz à tona os nossos talentos.

Uma sala de aula retratada
por Albert Anker (1831-1910)
"Aula" (outro verbete no meu livro) proveio do grego aulé, indicando um espaço dentro dos palácios em que se podia ficar. "Áulico" é, hoje, sinônimo de "palaciano". A sala de aula é expressão pleonástica. Se pensamos aula como exposição feita pelo professor sobre algum assunto, temos uma metonímia, enfatizando-se o que ali se realiza.

E "escola", também comentada no Palavras e origens, provém do grego skholé, espaço vital em que se praticava o ócio, a discussão livre, o aprendizado como experiência intensa, a salvo das pressões externas.

Para quem quer conhecer a origem de outras palavras relacionadas ao mundo da escola, do estudo, da academia, recomendo Oculto nas palavras, de Luis A. Castello e Claudia T. Mársico (Autêntica, 2007).