domingo, 27 de março de 2011

O que agrega a egrégora?

Recebi a seguinte mensagem: "Olá, gostaria muito de saber o significado etimológico da palavra EGRÉGORA, bem como, saber se a sua origem tem algo em comum com as palavras CONGREGAR e AGREGAR. Obrigado!" (Charles, Teresópolis-RJ).

Prezado Charles, a palavra "egrégora" — "força espiritual resultante da soma das energias (físicas, mentais, emocionais etc.) de duas ou mais pessoas que se reúnem para obter esse efeito", segundo o iDicionário Aulete — pertence ao mundo do esoterismo.

Éliphas Lévi, pseudônimo do ocultista Alphonse Louis Constant (1810-1875), utilizava essa palavra. No seu livro Histoire de la magie define as egrégoras como entidades que capitaneiam as almas, são seres terríveis e destruidores. Não há registros etimológicos para esse termo. Talvez Éliphas Lévi, que estudou filologia, tenha se inspirado na palavra grega ἐγρήγορος ("vigilante", "desperto").

Numa interpretação moderna, seres simbólicos como o Papai Noel ou o Tio Sam poderiam ser interpretados como egrégoras.

Não há a menor possibilidade de uma relação entre "egrégora" e os verbos "agregar" e "congregar". Estes dois estão ligados ao latim grex, "grupo de animais ou indivíduos da mesma espécie", em conexão com outras palavras como "gregário", "segregado", "agremiação" e "egrégio".

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tsunami ou maremoto?

Conversando hoje em família, surgiu a dúvida: há diferença entre tsunami e maremoto? À primeira vista, o segundo foi substituído pelo primeiro na última década. Um e outro são o mesmo fenômeno?

Do ponto de vista etimológico, conforme percebeu o escritor Evaristo Eduardo de Miranda, no seu livro Animais interiores, nadadores e rastejantes (Loyola, 2004), há um certo paradoxo na formação da palavra japonesa. Se tsu é "porto" e nami significa "ondas", ou seja, "ondas de porto", cabe perguntar: as ondas se ancoram ao porto ou é o porto a se ancorar nas ondas?

O termo "maremoto", por analogia a "terremoto" (temos também "aeromoto", ares agitados, e "lunamoto", quando há abalo sísmico na lua), designa o mar em agitação: o elemento -moto (do latim motus) indica esse movimento. O maremoto é causado por um sismo no fundo do mar.

Alguns autores explicam que um tsunami, a onda gigantesca, em geral provém de um maremoto.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Diferentes tabletes

O tablet está na moda. É uma espécie de prancheta eletrônica, ou bloco de papel sem papel. O iPad de Steve Jobs é o tablet mais cobiçado. Poderíamos traduzir tablet por tabuinha? Ou por tablete mesmo?
A palavra remete ao antigo francês tablete (século XIII), diminutivo de table, "mesa", que por sua vez procede do latim tabula — "prancha", "ripa", "tabuinha" (onde se escrevia). Tablete pode ser uma barra de chocolate, por lembrar uma pequena tábua. Aliás, a palavra "tabela" está nos rondando aqui também.

Pode ser o comprimido (remédio) porque foi achatado, literalmente comprimido. Já se registrava esse uso no século XVI. E não só para pequenas peças de remédios, mas também de sabão e alimentos.

No final do século XIX, um laboratório farmacêutico britânico designou com a palavra tabloid um dos seus medicamentos compactos. E a palavra serviu no início do século seguinte para, por exemplo, pílulas de chá. Os soldados ingleses levavam esse chá comprimido, dentro de latinhas, durante a Primeira Guerra Mundial (a hora do chá é sagrada...).

tabloid se chamou o jornal em tamanho menor do que o habitual. O primeiro deles foi o New York Daily News, em 1919.

Olhando para o passado, podemos ver o pai do iPad ... um iPedra, em formato arrojado e com grande impacto entre seus usuários...

domingo, 13 de março de 2011

Mais etimologia na livraria

Nesta semana, mais etimologia na livraria, com o lançamento de um novo livro do Prof. Mário Viaro sobre o tema inesgotável.

Anote aí: dia 16 de março, quarta-feira, na Loja de Artes da Livraria Cultura, no Cj. Nacional, Av. Paulista, 2073. A partir das 18h30.

sábado, 5 de março de 2011

Carnaval: quanto vale e o que leva...

Os dias anteriores à Quarta-feira de Cinzas eram (ideia não de todo descartada) período de despedida da carne. Daí porque a etimologia popular diga que no latim medieval havia a expressão carne vale: "adeus, carne!" A "terça-feira gorda" alude ao iminente início de um tempo de jejum e abstinência.

Seria o caso de perguntar quanto vale o carnaval. Ou quanto pesa... Ou o que nos leva a pensar e fazer.

A palavra "carnaval" guarda em si um fato religioso e uma experiência cultural. O papa Gregório Magno, em 590, transferiu o início da Quaresma para quarta-feira, e denominou o domingo imediatamente anterior como dominica ad carne levandas, o domingo a partir do qual se suprimiria o consumo de carne.

A expressão popularizou-se e se difundiu. No milanês, como carnelevale. Antes, no baixo-latim, carnelevamen. Graças a um pouco de tolerância, o adeus à carne passou do domingo para a terça. De qualquer forma, a carne deve ser levada para longe do fiel antes que comece a Quaresma. Etimologicamente falando, o único dia de carnaval deveria ser a terça-feira...

terça-feira, 1 de março de 2011

Ditadura não é mole...

O comportamento ditatorial se revela em vários âmbitos da vida humana. Mais notoriamente na vida política, mas também nas relações de trabalho, sociais, afetivas, familiares etc.

"Ditadura", no sentido de poder absoluto ou autoritário (e por vezes vitalício), é palavra do final do século XVI. Na antiguidade romana, um ditador era o magistrado ou o general que recebia, com a aprovação do Senado, prerrogativas especiais ou, em casos graves, poder total.

Sua função, passando por cima das leis se fosse necessário, consistia em resolver problemas urgentes, que pusessem em risco a estabilidade da república.

Não era para sempre, porém. Uma ditatura tinha duração limitada, no máximo seis meses. Era um mandato, portanto. Não se tratava de um apegamento ao poder de um indivíduo, coisa ridícula, afinal, como demonstrou Charlie Chaplin num de seus filmes mais famosos.

A palavra "ditadura" deriva do verbo latino dicere ("dizer"), e indicava a dignidade da autoridade cujas palavras e sentenças possuíam força de lei.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

— Me diga de onde vem tanta formiga!

Não é fácil descobrir de onde vêm as formigas. Invadem, saqueiam, multiplicam-se, pululam, desaparecem, ressuscitam. Mas a pergunta é a seguinte: ao menos do ponto de vista etimológico, é possível saber a origem da palavra em questão?
Procede do latim formica. Que surgiu do grego myrmex. A alteração da primeira letra "m" por "f" pode ter sido ocasionada pela vontade de quebrar o poder devastador deste inseto. As formigas são uma autêntica praga. O redobro da letra "m" indicaria o movimento repetitivo e incansável das formigas.

Achava-se, na etimologia imaginativa praticada na Idade Média (Santo Isidoro de Sevilha era um obsessivo etimólogo e pode ser considerado o nosso padroeiro), que a palavra formica provinha da expressão ferre micas, isto é, "carregar migalhas", manifestando verbalmente uma típica ação da dita cuja.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um Oscar para a etimologia!

Uma das possibilidades etimológicas afirma que o nome masculino Oscar provém do germânico Osgar, formado por gar ("lança") e Os ("deus"). Trata-se do combatente divino, ou da lança divina que ajuda o guerreiro a vencer as batalhas.

O cobiçado Oscar, cuja entrega anual atrai a atenção de quem gosta ou vive de cinema, ganhou esse nome (esta é uma das versões) quando, em 1931, Margaret Herrick, secretária da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, teria dito ao ver a estatueta: "Nossa, parece com o meu tio Oscar!". O agricultor Oscar Pierce era o tio, e jamais ganhou um prêmio por ter cedido seu nome, involuntariamente...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Quem cuida vive pensando

Profª Jane Haddad me perguntou pelo twitter: "@gperisse e a etimologia da palavra 'cuidado'? Preciso de uma luz, e quem foi o primeiro filósofo a falar sobre o cuidado (care)?"
Jane, talvez a etimologia nos leve ao primeiro filósofo-falante... ou ao primeiro falante, que certamente foi filósofo!
A nossa palavra "cuidado" procede do latim cogitare, "pensar", "conceber", "preparar". Passou por várias transformações. Em um dado momento, no antigo italiano, foi coitare. No português arcaico, tínhamos cuydar, provavelmente antecedido por um *cugitare. No antigo francês, existia o verbo cuider, hoje em desuso... talvez por descuido?

Indo mais longe, é preciso lembrar que o latim cogitare decompõe-se em co + agitare. Agitare era a insistência do agere ("agir"). Das tarefas mais físicas do agir chegou-se ao agir do espírito. A expressão agitare mente significava "mover no espírito", caminhar no pensamento, direcionar ideias, andando com elas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Chuva de pedra fura guarda-chuva

Hoje tivemos chuva de granizo em alguns pontos da cidade de São Paulo. Imaginei um guarda-chuva lapidado pelo céu...

granizo da chuva desce das nuvens, mas de onde vem a palavra?

Voltemos ao século XVI, com o termo em castelhano, granizo, que reporta ao latim grando. Esta palavra, além de significar "granizo" mesmo (grãos miúdos, granitos, pequenas pedras), indicava, figurativamente, a eloquência de uma pessoa. Quem falava muito bem, argumentando com agudeza, parecia produzir de sua boca uma autêntica chuva de pedras!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Salário mínimo: doce, amargo ou salgado?

Nesses últimos dias, muitas discussões políticas em torno da definição do salário mínimo. Contudo, seja qual for o resultado das brigas e votações, continuará a ser mínimo...

E para a etimologia? Quanto vale o salário?
A palavra provém do latim salarium, "uma porção de sal". Entre os antigos romanos, o sal fazia parte dos provimentos devidos a um soldado, além de vinho, óleo, grãos... O sal era tão importante para o dia a dia que acabou designando toda e qualquer remuneração.

E "sal" provém do grego als, com vários significados: "sal", "água salgada", "mar" e... "graça", "perspicácia". Esta última acepção faz lembrar a passagem evangélica em que Jesus pede aos seus seguidores que sejam o sal da terra: Vos estis sal terræ.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O choro do Fenômeno

Ao dar por encerrada sua carreira como jogador de futebol, Ronaldo, conhecido como Ronaldo Fenômeno, chorou. Um choro comum, nada fenomenal.

E de onde vem a palavra que deu origem ao apelido?

Do grego phainómenon, "coisa que aparece", "coisa que é vista". Na verdade, pensando filosoficamente, tudo o que aparece, tudo o que pode ser experimentado pelos sentidos ou descoberto pela consciência, seja o que for, é fenomenal. A palavra "fenômeno" ganhou conotação de algo maravilhoso e extraordinário apenas no século XVIII.

Uma curiosidade: no beisebol norte-americano, no final do século XIX, surgiu a gíria phenom, em referência a todo jogador desse esporte que se destacasse.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vamos fazer uma vaquinha?

Recebi pelo Formspring o seguinte recado: "Professor Gabriel, gostaríamos de saber a origem do termo 'vaquinha', no sentido de 'juntar dinheiro de várias pessoas', 'fazer uma vaquinha'... Obrigado."

Prezado navegante dos infomares, a resposta vem do campo. Do campo de futebol. E está no livro Cabeça-de-bagre: termos, expressões e gírias do futebol, de Ari Riboldi (Porto Alegre: Age Editora, 2008). Explicando o termo "bicho", conta-nos o autor:

"BICHO - Prêmio extra dado aos integrantes do time de futebol de acordo com o resultado alcançado. A prática começou, na década de 1940 [...], com o fim de estimular os atletas. O valor, na época pago em réis, teve a inspiração no número correspondente a animais do jogo do bicho. [...] O maior prêmio, dado em grandes vitórias e em conquistas de campeonatos, era 25 mil réis — 25 é o número da vaca, de onde surgiu a expressão: fazer uma vaquinha."

Para além do contexto futebolístico, a expressão ganhou vida própria e ampliou seu raio de ação. Qualquer rateio de dinheiro entre amigos, seja qual for o nobre objetivo, é fazer uma vaquinha.

A palavra "vaca" vem do latim vacca, "fêmea do touro". E vacca possivelmente tem a ver com o sânscrito vaksa, que descende do védico vakati, "chorar", "mugir": a vaca é o animal que chora.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Egito e suas mil possibilidades

O Egito tem atraído a atenção do mundo todo neste início de ano. Em razão da grave crise política.

País de longa história. Berço da civilização ocidental. Dele recebemos o anseio pela imortalidade, o conceito de justiça, as noções básicas da astronomia e invenções fundamentais como a cadeira de quatro pernas e a cerveja, sem as quais teria sido impossível criar a happy hour.

O nome "Egito" aceita diferentes possibilidades etimológicas. Uma delas explica que a palavra grega Aigyptos nasceu da dificuldade que os gregos tinham de pronunciar o termo egípcio Hwt-Ka-Ptah, "mansão de Ka para Ptá" ou "templo da alma de Ptá", modo como foi designado aquele país nos inícios.

Aigyptos significava, em essência, "terra de Ptá". Ptá era um antigo e poderoso deus, patrono dos artistas e artesãos, sob os cuidados de quem o Egito começou a se organizar por volta de 3150 a.C.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Bateu asas e voou!

Aves e insetos têm asas. Morcegos têm asas. Os aviões têm asas. As xícaras costumam ter asas. Entre os olhos e a boca temos asas nasais. E é bom darmos asas à imaginação. Mas de onde vem a palavra?

É preciso esclarecer que, em português, as asas andam misturadas, algo que não ocorre em espanhol, francês e italiano. "Asa" (que ajuda a voar) e "asa" (que ajuda a pegar) têm origens etimológicas diferentes.
A palavra "asa", com relação ao voo, vem do latim ala, que resultou ala, em espanhol; aile, em francês (no antigo francês, ele); ala em italiano.
Mas uma xícara não é alada. Sua asa reporta ao latim ansa, "cabo", com o qual se pega alguma coisa. Aliás, ansa também designava "oportunidade". Provavelmente o adjetivo easy, em inglês, "fácil", "acessível", provém daí. Com uma asa é mais easy segurar alguma coisa!

Em francês, a parte saliente de um cântaro, de um cesto chama-se anse; em espanhol, asa; em italiano, ansa. Em português temos "aselha", que é uma pequena "asa".

As asas portuguesas e brasileiras assistiram a uma convergência entre os vocábulos latinos ansa e ala. O verbo "asir", que já existia no século XVI, significa "segurar", "agarrar"... pela asa, que se escrevia aza, cinco séculos atrás.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Zica... posso tirar!

No formspring, um leitor deixou como desafio uma única palavra: "zica".

Que é, na verdade, contração de "ziquizira", sinônimo de "urucubaca". Estamos no campo do azar e do inexplicável.

No Novo dicionário banto do Brasil, Nei Lopes ensina que "ziquizira" é qualquer doença misteriosa que não se deve nomear. Se você tem uma ziquizira no braço, é algo que não pode nem sabe explicar. Um azar que vem sabe Deus de onde. Porque ainda há uma outra palavra relacionada a ziquizira: "quizila", do quimbundo kijila — "preceito", "regra".

Todo mundo tem suas quizilas, seus preceitos/preconceitos, suas restrições e antipatias. Coisas que não suportamos, que nos causam repulsa e... alergia! Os orixás têm suas quizilas também, como nos conta Mario Cesar Barcellos, em seu livro Orixás e a personalidade humana: Iansã não gosta de abóbora, Oxum detesta abacaxi, Iemanjá não aceita poeira, Oxosse não quer ovo.

Naquela canção de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, Upa neguinho (1967), aparece a palavra "ziquizira". Elis Regina cantando:


domingo, 23 de janeiro de 2011

A etimologia mora ao lado

Conversando ontem com um vizinho, eis que ele, interessado também em etimologia, me perguntou de onde vem a palavra "vizinho"!

Em latim, vicinus referia-se àquele que é do mesmo bairro ou da mesma aldeia. Este adjetivo remetia ao substantivo vicus, com que se designava uma reunião de casas, um bairro ou uma rua. Outra palavra no mesmo campo semântico era villa, significando "quinta", "aldeia".

Como, em geral, os vizinhos possuem características e circunstâncias semelhantes, a palavra ganhou sentido especial de proximidade entre conceitos e realidades, em frases como "uma situação vizinha da calamidade".

sábado, 22 de janeiro de 2011

A Fazenda e seu Ministério

Uma criança, quando ouviu a expressão "Ministério da Fazenda" pela primeira vez, perguntou: "E lá eles têm boi, cavalo, plantação de batata?". A pergunta é mais pertinente do que parece.

Ao Ministério da Fazenda cabe formular e executar a política econômica do Brasil. A palavra "fazenda" procede do latim vulgar *facenda, e já se referia a riqueza e bens. O termo liga-se ao ativíssimo verbo latino facere — "executar", "cumprir", "produzir".

Em princípio, *facenda deveria significar "coisas a serem feitas", a exemplo de "agenda" (coisas que aguardam o meu agir), "legenda" (coisas que devem ser lidas), "memorando" (o que precisa ser lembrado) e "oferenda" (coisas a serem oferecidas). Trata-se do particípio futuro passivo latino.

Para além da gramática, a praticidade levou "fazenda" a significar "o que já está feito". Um tecido pode ser chamado de "fazenda" porque já está devidamente tecido.

O ministro Guido Mantega, economista com formação sociológica, pode ser visto, se quisermos usar o tempero etimológico, como o principal "fazendeiro" do Brasil. Porque precisa cuidar do que está feito, do que está sendo feito e do que há para se fazer.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O ministério dentro d'água

É compreensível que num país como o Brasil, com o litoral que tem e a quantidade de água que nele corre — lembremos nomes de alguns estados como Alagoas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, do Sul etc. —, é compreensível que exista um Ministério da Pesca e Aquicultura, criado no entanto há muito pouco tempo, em 2009, no dia 29 de junho, Dia do Pescador. Ideli Salvatti ocupa o cargo maior deste Ministério.

A palavra "pesca" é redução de "pescar", que teve no verbo *piscare (do latim vulgar) seu antecessor, por sua vez proveniente do latim clássico piscari, vinculado a piscis, "peixe".

A etimologia demonstra uma curiosa lógica: em princípio pescar é pescar peixe, e só. Mais tarde, caiu na rede é peixe e outras coisas mais. "Pescar" vai ampliar seu alcance — apanhar outros animais marinhos, como a lagosta, buscar coisas na terra, surpreender alguém em flagrante e até captar realidades abstratas: "pescar ideias", "pescar intenções"...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Do continuum ao contínuo

Um visitante/navegante fez o seguinte comentário no formspring: "Olá, gostaria de saber a origem da palavra continuum. Tive uma ideia para um texto e essa palavra é crucial, porém não conheço sua definição exacta, e não a encontrei em lugar nenhum. Desde já agradeço."

A palavra continuum designa o que não tem lacunas nem interrupções, ou o que nos parece não ter. Reporta-nos à noção de união e, em sentido moral, à noção de continência e autocontrole.
Répteis (1943), de  M. C. Escher

Outro "parente" semântico, um tanto distante, é o termo "continência", entendido como saudação militar. O soldado faz um gesto contido, que reflete obediência contínua e constante estado de alerta.

Por trás de tudo encontramos o verbo latino tenere, com vários significados: "ter", "obter", "manter", "reter", "conter"...

Há ainda um outro "parente", o substantivo contínuo, "empregado", "servente", segundo o Aurélio: "indivíduo de qualquer idade, empregado em escritório para fazer trabalhos de entregas, visitas a bancos; bói, boy". Chama-se contínuo porque, sendo o empregado subalterno, aquele em que todos mandam, a todos obedece ato contínuo, imediatamente.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ministro serve para servir

Ministro que não serve... não serve para ministrar. É o que nos ensina a etimologia.

A palavra se usa no campo da política e da religião. O poder dos ministros está a serviço dos outros. Em latim, ministerium designava o ofício do servo. Ministra significava "escrava", "assistente" e "sacerdotisa".

Dilma Rousseff e seu ministério (2011)
Na palavra latina minister está presente o comparativo minor, "menor". A grandeza de um ministro está em se tornar o menor de todos, aquele que se esforça por servir.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Um tango para os otários

Recebi a seguinte mensagem pelo formspring: "Recentemente, um fato chamou a atenção dos meios de comunicação. Um eminente político brasileiro chamou um menino de 'otário'. E aí, caro professor, qual a etimologia de 'otário'?"

Caro navegante dos infomares, a palavra "otário" chegou ao Brasil na década de 1920, pela Argentina. No lunfardo, gíria usada pela malandragem de Buenos Aires, significava o "ingênuo", o "tolo", aquele que pode ser facilmente enganado. O tango Se acabaron los otarios ajudou a difundir o termo.



E a gíria na Argentina nasceu, por sua vez, da linguagem científica, da designação de otários aos leões-marinhos, mamíferos da família Otariidae (com relação ao grego otarion, "orelhinha"), animais pesados e lentos. Associamos sua falta de agilidade à tolice (hipótese avalizada por Silveira Bueno).

O personagem Leôncio, nas histórias do Pica-pau, é um leão-marinho com sotaque sueco que faz esse papel de bobão, em contraste com o pássaro espertinho.

Há etimólogos, como Mário Eduardo Viaro, que oferecem outra hipótese. De que a palavra nasceu da expressão "un notario", o tabelião, mais plausível por ser proveniente do mundo urbano.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Meu caro colega!

Um frequentador deste blog pergunta a origem da palavra "colega".

Ser colega de alguém pressupõe algum tipo de associação ou parceria, de caráter profissional, religioso ou acadêmico. Num colegiado, órgão em que os membros participantes têm os mesmos poderes, cada colega deve ser respeitado pelos demais como um companheiro, um igual.

No latim, collega refere-se ao verbo colligere, "reunir", composto por cum ("com") + legere ("colher").

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Presepistas, presepadas e presepeiros

Edison Junior, frequentador deste blog, pergunta sobre a origem da palavra "presepada", cujo significado parece bem distinto dos associados a "presépio".

Caro Edison, curiosamente a palavra "presepada" continua vinculada a "presépio".

Os dicionários registram "presepeiro" e "presepista" em relação àqueles que constroem presépios. Uma profissão semelhante à do santeiro, que faz imagens de santos.

No entanto, o limite entre o bem-acabado e o tosco, entre a autenticidade e a farsa, é sempre muito tênue. Quando o presepeiro não fazia um bom trabalho, o que era para ser uma pequena obra de arte, em honra ao nascimento do Menino, transformava-se numa verdadeira presepada.
A palavra migrou para todos os cantos. Sempre que alguém arma um espetáculo ridículo ou grotesco vira um presepeiro, um farsante, um inconveniente.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E próspero ano-novo...

Desejamos a todos que o ano que vem seja próspero. Que possamos usufruir de circunstâncias favoráveis em várias dimensões da vida: família, saúde, emprego...

A palavra remete ao adjetivo latino prosper, "feliz", "que corre bem". E guarda, nas entreletras, um segredo. Ao analisar prosper, descobrimos que o prefixo pro está associado a spere, que por sua vez reporta a spes, "esperança".

Quando você desejar um próspero ano para alguém, lembre-se: a esperança é o que nos faz caminhar!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Presépio etimológico


Presépio no Conjunto Nacional (SP), dezembro de 2010.
Não há Natal sem presépio. A palavra "presépio" vem do latim praesepe, cujo significado básico é "estábulo", "curral", "redil". Está composta pelo prefixo prae = "diante", e do substantivo saepes = "lugar fechado" (e daí a nossa palavra "sebe").

Houve uma confusão conceitual entre o lugar onde os animais ficavam e o tabuleiro em que se depositava a comida para eles se alimentarem. Daí que presépio signifique o estábulo e, em ponto menor, a manjedoura. O texto bíblico admite essa dualidade.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Onde você vai passar o Réveillon?

Estamos próximos de 2011, e já se ouve a pergunta típica: "onde você vai passar o Réveillon?".

Ainda não se criou em nosso idioma termo específico para designar os festejos em preparação para a chegada do Ano-Novo. E a palavra francesa também não foi plenamente aportuguesada. A pergunta equivalente "onde você vai passar o Ano-Novo?" convive com a outra em igualdade de condições.

É que "réveillon" (muitos já escrevem "reveillon", sem acento) está bem arraigado entre nós. Talvez daqui a algumas décadas a grafia se torne "reveiom" (a exemplo de "creiom" a partir do francês crayon)...
Até lá... qual a origem de "réveillon"?

Do francês réveiller, "acordar". A tradição era a família ficar acordada na passagem para o novo ano, mas sobretudo na noite de Natal, em espírito de vigília e oração. O Réveillon de Noël — a ceia de Natal, entre familiares e amigos — era até mais importante do que o do dia 31 de dezembro.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Receita de panetone

Uma lenda, com várias versões, sobre a receita do panetone...

Na Idade Média, em Milão, havia um pobre ajudante de padeiro chamado Toni. Jovem ainda, trabalhava horas a fio para sustentar a família e cuidar de sua mãe, viúva e doente. Passava noites em claro produzindo pães e durante o dia se desdobrava como filho zeloso e irmão mais velho de três crianças.

Às vésperas do Natal, seu patrão lhe encomendou, além dos pães, uma torta para a festa que se aproximava. Um cliente muito importante tinha feito o pedido. Exausto, porém, Toni se atrapalhou e acabou derrubando na vasilha onde descansava a massa do pão as uvas passas que estavam destinadas para a torta. Em desespero, jogou na massa já estragada as frutas cristalizadas, a manteiga, os ovos e outros ingredientes que seriam usados para a torta. Assou a mistura e voltou para a casa. Estava certo de que depois do Natal seria demitido.
Na manhã seguinte, contudo, ao chegar ao trabalho, Toni foi surpreendido por um abraço do patrão que vinha felicitá-lo pelo maravilhoso pão que, em lugar da torta, dera um brilho único à festa de Natal do cliente:

— Não sei que receita você criou, mas a partir de hoje vamos chamar este pão de pane di Toni!

Nascia o panettone. E o padeiro convidou o rapaz para ser seu sócio. E meses depois Toni se casou com a bela filha do padeiro. E a mãe de Toni ficou curada e, conversa vai, conversa vem... se casou com o padeiro, que também era viúvo. E todos viveram felizes para sempre!
A história é ótima, mas entra no capítulo da etimologia popular. A palavra "panetone" provavelmente veio do milanês panattón, aumentativo de pan, significando "pão grande", "pão de luxo", em virtude dos ingredientes que o enriquecem.
Deonísio da Silva, em seu livro A vida íntima das palavras, refere-se à expressão pane tonico, um "pão fortificante".

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A onda da abundância

A etimologia provoca surpresas. O que estava coberto é des... coberto. Quem imaginaria que "abundância" tem alguma relação com a palavra "onda"? Pois tem!

No latim, abundare significava "transbordar". E estava formado pelo prefixo ab ("fora") e pelo verbo undare ("fluir", "ondular"), que por sua vez remete a unda ("onda"). As águas ondulam e transbordam em abundância...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A etimologia do malandro

Há dúvidas sobre a origem da palavra "malandro", o que não causa estranheza, porque malandro tem lábia, é maroto, não se deixa pegar tão facilmente.

Uma hipótese para significar o sujeito de comportamento duvidoso é a de que a palavra vem de um casamento estranho entre o latim malus ("mau", "errado") e o provençal landrin ("preguiçoso", "vagabundo").

Outra possibilidade tem a ver com Dom Quixote. No livro de Cervantes (século XVII), aparece a palavra malandrín, com o sentido de "patife". Teria vindo do italiano malandrino, significando, na origem, quem era vítima de uma espécie de lepra, denonimada em latim vulgar *malandria. Esta palavra, por sua vez, remete ao grego mélas ("negro"), por causa da cor escura da pele do leproso. Na Itália, os ladrões acabariam sendo chamados assim também. O motivo da ligação estaria em que ambos não trabalham, mas os ladrões recorrem ao roubo e não à mendicância.

Antenor Nascentes registra uma outra ideia, defendida por João Ribeiro. A palavra teria a ver com "malandra", ferida ou sarna que ataca as juntas internas dos joelhos dos cavalos e outras cavalgaduras. Provindo do francês malandre (séculos XV-XVI). Esta sarna atrapalha o andar dos animais. E este "mal andar", teria a ver com a malandragem, a vagabundagem, o andar por aí, de mau jeito.
No Brasil, a palavra "malandro" ganhou conotação menos agressiva. O malandro carioca, por exemplo, é o esperto. Lança mão de vários expedientes para sobreviver, com um toque de graça, irreverência e sensualidade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

WikiLeaks, vazamentos que esvaziam

A palavra "vazamento" tem ligações perigosas com o vazio. No latim, vacivus é o que está desprovido. Na Idade Média, tínhamos um provável *vaziar. Que será o nosso "esvaziar".

Os vazamentos assustam, sobretudo quando se trata de algo que pode encher a humanidade de vergonha... Algo que não deveria circular por aí, mas que, ao circular, esclarece muita coisa!

Quando algo assim vaza... surge o vazio. Desde sempre sabemos — o ser humano tem medo do vazio. Mas para algum lugar vai aquilo que vazou. Há uma troca, vamos dizer assim. Se eu estava vazio de informações, agora estou repleto. O que antes era cheio, agora está cheio de nada...

WikiLeaks é uma organização que rompe muros e paredes, promove vazamentos espetaculares de documentos, vídeos, segredos. No inglês, a palavra leak remete ao germânico lechzen ("ressecar", "produzir sede"). O sentido de "tornar conhecido algo sigiloso" data do início do século XIX.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A vez das fezes

De onde vem a palavra "fezes"?, perguntou um leitor deste blog.

Certa vez um professor me afirmou, abusando da ironia, que "fezes" vinha do verbo latino facere, "fazer". Defecar seria o fazer mais próprio do humano...

Provém, sim, do latim, mas do substantivo faex, que designava a borra do vinho (depositada nos recipientes após a fermentação), e o resíduo que se separa dos metais durante a fusão.
Por extensão, passou a indicar o desprezível, o impuro, o asqueroso. Os excrementos foram incluídos neste rol.

Daí também a antiga expressão pejorativa populi faex, com que os romanos "superiores" indicavam a escória da sociedade.

Quando alguém diz com grosseria que um filme é uma merda, ou que alguém é um bosta, retoma essa ideia: o filme não presta, aquela pessoa é detestável, repugnante.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A inveja não vê

Um leitor quer saber a origem etimológica de "inveja".

No latim, invidia relaciona-se com a noção de "ver" (videre). O prefixo in associado à visão invejosa, que não desgruda dos bens alheios, mostra o quanto há de recusa e de ódio nesse olhar.

Não é à toa que se fala em "olho gordo", porque doentes e deformados estão os olhos de quem não se admira positivamente com o que dá alegria aos outros.

Dante, na Divina comédia, apresenta os invejosos no Purgatório, com os olhos costurados. Quem, durante a vida, não soube apreciar o bom e o belo com abertura de coração, depois da morte não conseguirá enxergar nada.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sim, é um cachimbo!

A palavra "cachimbo" é intrigante. Uma das várias hipóteses para sua origem remete ao guarani caatimbó — fumaça (timbó) que vem de erva (caá) queimada.

Dizem alguns estudiosos, no entanto, que devemos pensar em ka jingu, de origem africana. Nas línguas da família banta, este ka é um prefixo diminutivo, e jingu uma espécie de cachimbo.

Ou ainda, como afirma Nei Lopes, no Novo dicionário banto do Brasil, terá suas raízes no quimbundo kuxiba, "chupar".

"Cachimbo" desconcerta os etimólogos porque o mesmo aparelho para fumar, em outros idiomas, soa diferente. Em francês, é pipe. Em espanhol, pipa. Em finlandês, piippu. Em inglês, pipe. Em italiano, pipa. Em alemão, Pfeife. Em holandês, pijp. Em irlandês, píopa. E todos procedem de *pipa, do latim vulgar, em conexão com o verbo latino pipare, "chiar". A alusão ao chiado tem a ver com o ruído que se faz nas cachimbadas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A etimologia que entrou em parafuso

A etimologia não é uma ciência exata, e por vezes os caçadores de palavras entram em parafuso! A palavra "parafuso", por exemplo, não tem uma história muito clara, o que não impede especulações e hipóteses em torno de objeto tão importante para a construção de uma sociedade!

O linguista Rosário F. Mansur Guérios se refere à expressão latina medieval *pare fusu, "fuso parelho", assemelhado ao fuso de fiar.

Outra possibilidade, de difícil confirmação, é que, proveniente do espanhol parahuso, o termo nesse idioma tenha nascido da tradução/adaptação da palavra alemã Bohreisen, formada por bohren, "furar", e eisen, "ferro". O pequeno ferro que fura. Uma hipótese que não é fácil atarraxar!



No século XIX, surgiu a expressão "ter um parafuso a menos (na cabeça)", indicando que alguém, por apresentar comportamento estranho e inconveniente, estaria com doença mental grave, ou simplesmente desorientado. Certamente uma comparação entre máquinas que não funcionam bem e seres humanos atrapalhados.

Entra em parafuso quem se sente perdido, naquela arriscada manobra em que o avião perde altura e desce, rodopiando, como se fosse esborrachar-se no solo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Eis um bando de bandidos!

Já li em alguns textos a expressão "bando de bandidos". Temos aqui uma redundância? O que os bandidos têm a ver com "bando"? Todo bando é formado por bandidos, ao menos do ponto de vista etimológico?

Os godos no início da era cristã designavam com a palavra *bandwa o emblema que identificasse um grupo, a bandeira, o estandarte, a insígnia. Em típica inversão, o termo acabou por designar o próprio grupo, a própria facção representada. A palavra é assumida pelo latim medieval bandum. No provençal, banda era "corpo de tropa", "partido", "lado".

A palavra "bando" pode referir-se a um ajuntamento de pessoas pura e simplesmente. Ou de animais. Ou a um bando de criminosos e de bandidos.

"Bandido" remete ao italiano antigo bandetto, aquele que foi banido da sociedade, em consonância com o verbo bandire, "banir", "exilar", "proscrever". Este verbo está unido ao verbo gótico (sim, voltamos ao gótico!) *bandwjan, "assinalar".

O bandido é expulso, mas para isso tem de ser assinalado; que todos vejam como o bandalheiro deve ser excluído da comunidade.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O que faz alguma coisa ser fascinante?

Um leitor do blog pergunta de onde vem a palavra "fascinante".

Voltemo-nos para o latim fascinantis. Quem está experimentando um fascínio sente-se fortemente atraído por uma visão. Está enfeitiçado, seduzido por palavras encantatórias.

Uma pessoa fascinante deixa seus admiradores em estado de espanto. Ficar embasbacado é sofrer a ação do que fascina. Extasiados perante o que fascina, abrimos a boca e perdemos a fala.
No latim também havia fascinus, amuleto com poderes mágicos. Uma forma de manter o outro sob o domínio da magia é paralisá-lo. O amuleto também "congela" aqueles que pretendem fazer o mal.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Todo exame é exigente

Todo exame é exigente. Tanto o exame de sangue como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) pedem que a pessoa dê um pouco do próprio sangue.

A palavra "exame" está vinculada ao latim exigere, vocábulo composto de ex mais agere. A exigência do exame, portanto, é uma ação que, vinda de fora e/ou de dentro, nos obriga a superar-nos, a sair de nós mesmos, a dar o melhor de nós.

Há vários significados para os dois verbos examinare e exigere — "exigir", "examinar", "analisar", "fazer cumprir", "medir", "apreciar", "julgar" e até... "torturar".

O sentido de exame como teste especificamente voltado para aferir o grau de conhecimento de uma pessoa começa a se impor a partir do século XVII.

domingo, 7 de novembro de 2010

Famosos pra cachorro!

Muitos animais fizeram sucesso no cinema e na TV. Os cachorros estão entre os atores mais famosos, como Lassie,  Rin Tin Tin, Beethoven e, mais recentemente, Marley.


No latim vulgar supõe-se que havia a forma *cattulus, da qual teria vindo o nosso "cachorro". Antes, no latim clássico, catulus significava, genericamente, o filhote de um animal. Com o tempo, associou-se ao filhote do cão e ao próprio cão, dentre todos os quadrúpedes o companheiro mais próximo do ser humano.

O cachorro seria, então, o filhote por excelência, e, por uma dessas peças que o pensamento confundente nos prega, a cria e o filhote do próprio ser humano!

sábado, 6 de novembro de 2010

Para lá de caxangá

Um leitor deste blog perguntou pela origem de "caxangá", possivelmente lembrando a canção Escravos de Jó. Ou talvez a música Caxangá de autoria de Milton Nascimento e Fernando Brant, que Elis Regina interpretava brilhantemente.


A palavra "caxangá" possui vários significados.

Pode ser o gorro branco dos marinheiros, em tecido de algodão, as abas para cima. Ou um crustáceo, um tipo de siri, o Callinectes larvatus. Ou adereço usado pelas mulheres do estado de Alagoas.

Existem inclusive registros na música brasileira sobre um certo repentista mineiro que se chamava Caxangá.

A verdade é que não se sabe por que gorro, siri, adereço e cantor receberam esse nome. Não há como associá-los a alguma história etimológica.

O etimólogo José Pedro Machado limita-se a dizer que a palavra vem do tupi caá-çangá, indicando como fonte o Dicionário Tupi-Guarani-Português, de Francisco da Silveira Bueno. A palavra significava "mata extensa".

No Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena, de Clóvis Chiaradia, extensa é a lista das acepções: siripuã, gorro de marinheiro, adereços para mulheres, brinquedo infantil cantado, vila de um município no Espírito Santo, um bairro de Recife, um povoado no Pará, nome de um igarapé no Amazonas, um córrego em Macaé (RJ), uma localidade em Sergipe, outra em Pernambuco...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

De presidente para presidenta

Decisões políticas estão unidas a decisões linguísticas. Se a recém-eleita presidenta Dilma Rousseff quiser enfatizar que pela primeira vez uma mulher foi escolhida para esta função no Brasil, preferirá o substantivo feminino em lugar do artigo apenas, "a presidente".

A palavra remete ao latim praesidere, "estar em primeiro lugar", "governar", "administrar". Mais literalmente, significava sentar-se (sedere) diante (prae) de outras pessoas, para dirigir-lhes a palavra em situação de destaque e liderança.

A partir do século XVIII, em inglês (president) e em outros idiomas, assumiu o sentido de principal líder numa república.