"Li aqui que 'rejeição', 'jactância' e 'conjectura' provêm de jacere. Poderia explicitar ainda mais a relação? Nós, leitores, agradecemos. Vida longa ao blog!", Marcos (RJ).
Obrigado, Marcos!
Do latim rejectio, vem "rejeição", ação de "jogar" (jacere) fora. Mas não é um jogar qualquer. Por força do prefixo re, trata-se de jogar para trás, com desprezo.
Quando uma pessoa se jacta é porque ela própria se "lança" (de novo jacere) à frente dos outros. E o faz lançando palavras de autoelogio.
Fazer conjecturas é partir de evidências parciais, de alguns pressentimentos, e "arremessar" (jacere) numa discussão duas ou mais ideias como prováveis. É um pensar que suspeita e presume. A palavra vem do latim conjectura, em que está embutida, em virtude da preposição cum, a ação de "jogar duas coisas juntamente".
terça-feira, 24 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
O assunto da assunção
Recebi a seguinte mensagem: "Caro Gabriel, por acaso o 'assunto' de uma mensagem está relacionado a 'assunção'? Fui assolado pela dúvida ao ouvir sobre a Assunção de Nossa Senhora, quando se mencionou o fato de ela ter sido 'assunta' aos céus. Saudações, Evandro."
Meu caro Evandro, tudo bem? Sua intuição está correta.
A palavra "assunção" provém do latim assumptio, "recebimento". No caso da devoção católica, indica que Maria é recebida no céu, elevada ao âmbito divino, plenamente assumida pela Santíssima Trindade. Tem a ver com o verbo latino assumere (ad + sumere), "tomar para si", "assumir".
No século XVI, o significado retórico se torna patente. O assunto (do latim assumptus, igualmente ligado ao assumere) é a matéria assumida por aquele que irá se manifestar, é a questão à qual se dará atenção especial.
Meu caro Evandro, tudo bem? Sua intuição está correta.
![]() |
| Assunção da Virgem Maria de Bartolomé Murillo (séc. XVII) |
No século XVI, o significado retórico se torna patente. O assunto (do latim assumptus, igualmente ligado ao assumere) é a matéria assumida por aquele que irá se manifestar, é a questão à qual se dará atenção especial.
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domingo, 22 de agosto de 2010
O que há de substantivo em cada nome?
Um leitor deste blog escreveu: "Professor, de onde vem 'nome'? Poderia comentar ainda sobre a origem de 'substantivo'? Grato!"
O termo latino nomen era a palavra com que se podia designar uma pessoa ou coisa. A noção de reputação é antiga, mas só se firmou no século XIII. Já a ideia de que alguém tem nome porque é conhecido está registrada em contextos modernos, no início do século XX.
A palavra "substantivo" nos leva ao latim substantivus — remetendo ao que há de substancial e real em algo. O substantivo como categoria gramatical é contribuição dos franceses no século XIV. Antes disso, a palavra frequentava tratados metafísicos. Concretamente, substantia (sub, "sob", "no fundo de" + stare "estar", "ser") traduzia o termo grego hypostasis. Por substantia entendia-se uma entidade individual existente.
A palavra "substantivo" nos leva ao latim substantivus — remetendo ao que há de substancial e real em algo. O substantivo como categoria gramatical é contribuição dos franceses no século XIV. Antes disso, a palavra frequentava tratados metafísicos. Concretamente, substantia (sub, "sob", "no fundo de" + stare "estar", "ser") traduzia o termo grego hypostasis. Por substantia entendia-se uma entidade individual existente.
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sábado, 21 de agosto de 2010
Vila Nhocuné, parece tupi... mas não é
Elis Marchioni, ao ler uma postagem deste blog, perguntou: "Olá, professor! A Vila Talarico fica pertinho da Vila Nhocuné. Este nome não parece ser de origem tupi? O que acha?"
Parece mesmo, Elis, mas não é. No século XIX, o Coronel Christalino Luiz da Silva Liberato Augusto de Azevedo era proprietário de uma grande fazenda de café. Essas terras, na região leste da cidade de São Paulo, foram sendo retalhadas até que, na década de 1930, o que era uma chácara transformou-se no bairro conhecido como Vila Nhocuné.
Parece mesmo, Elis, mas não é. No século XIX, o Coronel Christalino Luiz da Silva Liberato Augusto de Azevedo era proprietário de uma grande fazenda de café. Essas terras, na região leste da cidade de São Paulo, foram sendo retalhadas até que, na década de 1930, o que era uma chácara transformou-se no bairro conhecido como Vila Nhocuné.
Essa palavra nasceu na boca dos escravos do "Senhor Coronel". Chamavam-no de "Sinhô Coroné" ou de "Nhô Coroné". Com o tempo, à força do uso: "Nhocuné".
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
O lado bom da agressividade
Meu amigo Pedro Paulo Monteiro, pensador e escritor, me perguntou pelo Twitter qual a origem da palavra agressividade.
No latim, o verbo aggredi se enquadra num contexto de ação e movimento. O agressor é quem avança em direção a algo ou a alguém, com firme determinação. Poderia fazê-lo com ânimo hostil ou amigável, para atacar ou simplesmente para falar.
Havia o sentido de "pôr mãos à obra". O agressor, neste caso, usaria toda sua força, não com a finalidade de destruir, mas para empreender.
No latim, o verbo aggredi se enquadra num contexto de ação e movimento. O agressor é quem avança em direção a algo ou a alguém, com firme determinação. Poderia fazê-lo com ânimo hostil ou amigável, para atacar ou simplesmente para falar.Havia o sentido de "pôr mãos à obra". O agressor, neste caso, usaria toda sua força, não com a finalidade de destruir, mas para empreender.
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Achados e perdidos
Maria Lídia, leitora deste blog, gostaria de saber o porquê da expressão "achados e perdidos", ponderando que os perdidos não deveriam estar junto dos achados...
"Achar" provém do latim afflare, "soprar", "farejar", no contexto original dos caçadores que, pelo odor, iam em busca da caça. E "perder" também remete ao latim, ao verbo perdere, "dissipar", "destruir".
Uma seção de Achados e Perdidos no metrô, no aeroporto ou num prédio pode chamar a atenção de quem busca uma lógica: por que os perdidos estão ao lado dos achados? Bastaria criar uma seção de Objetos Perdidos, ou coisa parecida.
Outra pergunta: por que os perdidos vêm depois dos achados? Em inglês, a ordem é inversa. Fala-se nos EUA e Inglaterra num serviço de Lost & Found, pois primeiro a pessoa perde e depois tem de caçar até achar o que perdeu. Em Portugal, usa-se a ordem do inglês, Perdidos e Achados. Na França, há o Service des Objets Trouvés, com ênfase nos objetos encontrados, que certamente foram encontrados porque estavam perdidos...
"Achar" provém do latim afflare, "soprar", "farejar", no contexto original dos caçadores que, pelo odor, iam em busca da caça. E "perder" também remete ao latim, ao verbo perdere, "dissipar", "destruir".
Uma seção de Achados e Perdidos no metrô, no aeroporto ou num prédio pode chamar a atenção de quem busca uma lógica: por que os perdidos estão ao lado dos achados? Bastaria criar uma seção de Objetos Perdidos, ou coisa parecida.Outra pergunta: por que os perdidos vêm depois dos achados? Em inglês, a ordem é inversa. Fala-se nos EUA e Inglaterra num serviço de Lost & Found, pois primeiro a pessoa perde e depois tem de caçar até achar o que perdeu. Em Portugal, usa-se a ordem do inglês, Perdidos e Achados. Na França, há o Service des Objets Trouvés, com ênfase nos objetos encontrados, que certamente foram encontrados porque estavam perdidos...
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010
É pique! É pique! É hora! É hora! É hora! Rá-tim-bum!!!
Um leitor escreve:
"Sou um apaixonado por etimologia... e seu blog é, para mim, um grande achado... Qual a origem de 'rá-tim-bum'?"
Meu caro, "rá-ti-bum" parece reproduzir o som de instrumentos musicais em momentos festivos, em especial nas apresentações circenses. O "rá" seria da caixa, os pratos fariam o "tim", e o bumbo, o "bum". Foi incorporado às festas de aniversário como complemento ao "Parabéns pra você", depois de um animado "É pique! É pique! É hora! É hora! É hora!"
"Sou um apaixonado por etimologia... e seu blog é, para mim, um grande achado... Qual a origem de 'rá-tim-bum'?"
Meu caro, "rá-ti-bum" parece reproduzir o som de instrumentos musicais em momentos festivos, em especial nas apresentações circenses. O "rá" seria da caixa, os pratos fariam o "tim", e o bumbo, o "bum". Foi incorporado às festas de aniversário como complemento ao "Parabéns pra você", depois de um animado "É pique! É pique! É hora! É hora! É hora!"
Há uma outra explicação, que inclui esse bordão "é pique, é pique, é hora, é hora". Tudo isso viria do ambiente estudantil da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, em São Paulo.
Naquele tempo, na década de 1930, "é pique, é pique" teria sido uma saudação jocosa ao estudante Ubirajara Martins, conhecido pelo apelido de "pique-pique", porque vivia aparando barba e bigode com uma tesourinha. O "é hora, é hora" teria sido um grito de guerra de botequim, criado pelos estudantes para pedir uma nova rodada de cerveja, depois de transcorrido o tempo suficiente para que a bebida gelasse em contato com as barras de gelo.
O "rá-tim-bum" (explicação meio bizarra...) teria sido uma referência a um certo rajá indiano chamado Timbum (ou coisa que o valha). O rajá, em visita à faculdade, virou motivo de outra brincadeira de botequim. Os alunos de Direito, lá reunidos, comemoravam fosse o que fosse gritando — "É pique-pique, pique-pique, é hora, é hora, é hora... rajá... tim... bum!".
Essa história um tanto mirabolante está documentada, porém, no Suplemento da prestigiosa Revista Pesquisa FAPESP n. 102, de agosto de 2004 (págs., 57-8), na matéria "O Brasil que as Arcadas vislumbraram", assinada por Fabrício Marques.
Naquele tempo, na década de 1930, "é pique, é pique" teria sido uma saudação jocosa ao estudante Ubirajara Martins, conhecido pelo apelido de "pique-pique", porque vivia aparando barba e bigode com uma tesourinha. O "é hora, é hora" teria sido um grito de guerra de botequim, criado pelos estudantes para pedir uma nova rodada de cerveja, depois de transcorrido o tempo suficiente para que a bebida gelasse em contato com as barras de gelo.
O "rá-tim-bum" (explicação meio bizarra...) teria sido uma referência a um certo rajá indiano chamado Timbum (ou coisa que o valha). O rajá, em visita à faculdade, virou motivo de outra brincadeira de botequim. Os alunos de Direito, lá reunidos, comemoravam fosse o que fosse gritando — "É pique-pique, pique-pique, é hora, é hora, é hora... rajá... tim... bum!".
Essa história um tanto mirabolante está documentada, porém, no Suplemento da prestigiosa Revista Pesquisa FAPESP n. 102, de agosto de 2004 (págs., 57-8), na matéria "O Brasil que as Arcadas vislumbraram", assinada por Fabrício Marques.
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
O luxo da luxúria
Um leitor deste blog quer saber a origem da palavra "luxúria", e outro, a da palavra "luxo".
A primeira vem do latim luxurìa, "superabundância",
"excesso", em conexão com o adjetivo luxus ("deslocado", "fora do normal", e no caso de "luxo" trata-se de um excesso de dinheiro, de bens materiais). Para que um mouse de diamante?
É possível que haja em ambos os casos uma relação com o verbo luctari, no contexto dos esportes violentos da antiguidade em que se tem a intenção de deslocar os membros do adversário. E o luxurioso, concretamente, vai longe demais e não se importa em destruir o outro.
A primeira vem do latim luxurìa, "superabundância","excesso", em conexão com o adjetivo luxus ("deslocado", "fora do normal", e no caso de "luxo" trata-se de um excesso de dinheiro, de bens materiais). Para que um mouse de diamante?
É possível que haja em ambos os casos uma relação com o verbo luctari, no contexto dos esportes violentos da antiguidade em que se tem a intenção de deslocar os membros do adversário. E o luxurioso, concretamente, vai longe demais e não se importa em destruir o outro.
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Jatos, jeitos e trajetos
Marcos, leitor deste blog, perguntou-me qual o parentesco etimológico entre as palavras "jato", "projeto", "projétil", "ejetar", "injetar",
"ejacular", "dejeto", "adjetivo", "sujeito", "objeto" e "trajetória".
De fato, todas essas palavras se unem em torno do verbo latino jacere, "lançar", "arremessar", "enviar".
O jato é o movimento do que é lançado, e temos outra palavra muito próxima, "jeito", associada às ideias de destreza, habilidade.
Aquilo que se lança para a frente é projetado. Tanto o projétil como os nossos projetos vão à frente. Atua aí a preposição latina pro, "diante de".
Ejetar é — agora com a preposição ex, "tirado de" — lançar para fora. Ejacular vai na mesma linha, emitir, lançar com força. Já o adjetivo é o que foi lançado ao lado, é o que está próximo, é o que foi acrescentado, em razão da preposição latina ad.
Graças à preposição in, lança-se sobre, ou para dentro, quando algo é injetado. Agora, quando dejetamos algo é porque lançamos para baixo, por terra — ver a preposição de.
O sujeito — do latim subjectus — é o que está "situado abaixo", foi sujeitado ou está submetido a exame, e por isso em inglês subject é "tema", "assunto", "matéria".
Do latim objectus, veio o objeto, algo que está na nossa frente, e tem jeito de obstáculo muitas vezes. A objeção é algo que interrompe nossa trajetória, nosso caminhar em direção ao mais além, ao trans...
E não só essas palavras estão ligadas ao jacere: também "conjectura", "interjeição", "rejeição", "jazer", "jactância", etc.
"ejacular", "dejeto", "adjetivo", "sujeito", "objeto" e "trajetória".
De fato, todas essas palavras se unem em torno do verbo latino jacere, "lançar", "arremessar", "enviar".
O jato é o movimento do que é lançado, e temos outra palavra muito próxima, "jeito", associada às ideias de destreza, habilidade.
Aquilo que se lança para a frente é projetado. Tanto o projétil como os nossos projetos vão à frente. Atua aí a preposição latina pro, "diante de".
Ejetar é — agora com a preposição ex, "tirado de" — lançar para fora. Ejacular vai na mesma linha, emitir, lançar com força. Já o adjetivo é o que foi lançado ao lado, é o que está próximo, é o que foi acrescentado, em razão da preposição latina ad.
Graças à preposição in, lança-se sobre, ou para dentro, quando algo é injetado. Agora, quando dejetamos algo é porque lançamos para baixo, por terra — ver a preposição de.
O sujeito — do latim subjectus — é o que está "situado abaixo", foi sujeitado ou está submetido a exame, e por isso em inglês subject é "tema", "assunto", "matéria".
Do latim objectus, veio o objeto, algo que está na nossa frente, e tem jeito de obstáculo muitas vezes. A objeção é algo que interrompe nossa trajetória, nosso caminhar em direção ao mais além, ao trans...
E não só essas palavras estão ligadas ao jacere: também "conjectura", "interjeição", "rejeição", "jazer", "jactância", etc.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010
O recheio da farsa
Estive no simpático programa de Gilmar Lopes, E-farsas.com, para conversar sobre etimologia.
E a palavra "farsa", que recebemos do francês farse, termo precedido por *farsa, do latim popular, remete ao ato de contar uma pequena história. Retrocedendo um pouco mais, chegamos ao verbo do latim clássico farcire, "rechear", "preencher", "engordar".
Quando inventamos uma história (uma farsa...), recheamos o tempo, no teatro ou na vida (e a vida não deixa de ser uma peça teatral).
A entrevista está aqui, na íntegra:
E a palavra "farsa", que recebemos do francês farse, termo precedido por *farsa, do latim popular, remete ao ato de contar uma pequena história. Retrocedendo um pouco mais, chegamos ao verbo do latim clássico farcire, "rechear", "preencher", "engordar".
Quando inventamos uma história (uma farsa...), recheamos o tempo, no teatro ou na vida (e a vida não deixa de ser uma peça teatral).
A entrevista está aqui, na íntegra:
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sábado, 7 de agosto de 2010
Do telhado ao corpo humano
Perguntou um dos leitores deste blog: "de onde vem a palavra "telhado"?
O telhado remete a "telhas", peças de barro cozido ou de outro material utilizadas para cobrir moradias. A palavra provém do latim tegula, "o que serve para cobrir", em conexão com o verbo tegere, "esconder", "cobrir". Uma frase latina: "tegere lumina somno", ou seja: "fechar os olhos para dormir".
"Proteger" também provém de tegere. O telhado é o que cobre e protege os moradores de uma casa. A palavra "teto" pertence à mesma família. Tudo indica que "tijolo" também.
Saindo do campo das construções, para o da anatomia humana, o verbo latino tegere está na origem de "tegumento", o conjunto constituído de pele, pelos, cabelos e unhas, que cobrem e protegem o corpo humano e são, por assim dizer, o nosso telhado natural.
"Proteger" também provém de tegere. O telhado é o que cobre e protege os moradores de uma casa. A palavra "teto" pertence à mesma família. Tudo indica que "tijolo" também.
Saindo do campo das construções, para o da anatomia humana, o verbo latino tegere está na origem de "tegumento", o conjunto constituído de pele, pelos, cabelos e unhas, que cobrem e protegem o corpo humano e são, por assim dizer, o nosso telhado natural.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Ordem na informática!
Em comentário à postagem de ontem, Tauan perguntou sobre a origem da palavra francesa para computador, ordinateur.
Vale lembrar que em Portugal o computador também se chama ordenador. (No Brasil, preferimos nos alinhar com o computer, em inglês.) E ordenador remete ao latim ordinator, "aquele que põe por ordem", "aquele que arruma". Seria um computador, sob esse ponto de vista, um "arrumador" de dados e informações.
Vale lembrar que em Portugal o computador também se chama ordenador. (No Brasil, preferimos nos alinhar com o computer, em inglês.) E ordenador remete ao latim ordinator, "aquele que põe por ordem", "aquele que arruma". Seria um computador, sob esse ponto de vista, um "arrumador" de dados e informações.
A palavra latina ordo, que está na raiz do termo "ordenador", referia-se, originariamente, à arte de tecer, de dispor os fios para a criação de uma "ordem". A teia de aranha é um todo ordenado.
O ordenador é também aquele que dá ordens ao usuário? Fica a pergunta...
O ordenador é também aquele que dá ordens ao usuário? Fica a pergunta...
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Computa, computador!
Um leitor deste blog pergunta de onde vem a palavra "computador".
Nas entranhas da palavra vive o antigo e respeitável verbo latino putare: "contar",

Nas entranhas da palavra vive o antigo e respeitável verbo latino putare: "contar",
"calcular", "verificar", "avaliar",
"pensar"... O computador tem como função acelerar processos que os seres humanos já realizam.
O "com" de "computador" remete à preposição latina cum, indicando que o computador computa várias coisas "ao mesmo tempo". Extrapolando um pouco (só extrapola quem pensa mais do que o computador), poderíamos dizer que esta máquina computa com alguém, em companhia de alguém, com o seu próprio criador.
"pensar"... O computador tem como função acelerar processos que os seres humanos já realizam.
O "com" de "computador" remete à preposição latina cum, indicando que o computador computa várias coisas "ao mesmo tempo". Extrapolando um pouco (só extrapola quem pensa mais do que o computador), poderíamos dizer que esta máquina computa com alguém, em companhia de alguém, com o seu próprio criador.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Uma palavra da breca
Um leitor deste blog perguntou sobre a expressão "levar a breca", no sentido de "ir mal", quando alguma coisa não dá certo, lembrando também o "levado da breca".
A palavra "breca" surge em várias expressões.
Por exemplo, na interjeição de espanto "com a breca!", equivalendo a "com os diabos!". Também se diz "aquele menino é levado da breca", porque é travesso, comporta-se mal, é um endiabrado. A expressão "da breca" indica que algo é incômodo, ou excessivo, e se equipara ao adjetivo "danado", que tem a ver com a danação, a condenação eterna.
Não há registros sobre a origem etimológica de "breca", mas tudo indica que tem parte com o infernal...
Uma curiosidade: o tema de abertura do Programa do Chacrinha chamava o apresentador de "menino levado da breca".
A palavra "breca" surge em várias expressões.
Por exemplo, na interjeição de espanto "com a breca!", equivalendo a "com os diabos!". Também se diz "aquele menino é levado da breca", porque é travesso, comporta-se mal, é um endiabrado. A expressão "da breca" indica que algo é incômodo, ou excessivo, e se equipara ao adjetivo "danado", que tem a ver com a danação, a condenação eterna.
Não há registros sobre a origem etimológica de "breca", mas tudo indica que tem parte com o infernal...
Uma curiosidade: o tema de abertura do Programa do Chacrinha chamava o apresentador de "menino levado da breca".
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quinta-feira, 29 de julho de 2010
Tênis: uma sacada histórica
Um leitor deste blog pergunta a origem da palavra "tênis", o esporte.
Tennis, em inglês, procede do verbo francês no modo imperativo tenez, "segurai", "pegai", "tomai" (a bola). No jogo da pela, ancestral do tênis, quem ia sacar gritava esse aviso, desafiando o adversário.
No livro Tennis: a cultural history, de Heiner Gillmeister, o autor alemão lembra que no futebol medieval, violento jogo entre duas equipes, em que socos, pontapés e rasteiras eram o mais natural, os times em confronto pertenciam a cidades ou a feudos diferentes, em alegre competição (geralmente em feriados religiosos), e esse grito "tenez!" referia-se aos tenants, "arrendatários". O jogador dizia aos seus colegas de time: "segurai!" (a nossa posição), "defendei!" (a nossa terra). Por isso o verbo no plural, "segurai vós".
Tennis, em inglês, procede do verbo francês no modo imperativo tenez, "segurai", "pegai", "tomai" (a bola). No jogo da pela, ancestral do tênis, quem ia sacar gritava esse aviso, desafiando o adversário.
O tênis medieval, uma alternativa não violenta ao futebol da época, teria adotado a mesma palavra, mas de maneira impensada. O jogador de tênis dizia ao seu adversário o que, no outro jogo, era uma forma de estimular os companheiros do mesmo time.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010
Onde fica beleléu?
Um leitor deste blog perguntou de onde vem a palavra "beleléu", associada à expressão "ir pro beleléu".
A palavra é do banto, e era empregada pelos escravos negros para dizer que alguém tinha ido para a região dos mortos. "Ir para o beleléu" é morrer, ou, eufemisticamente, desaparecer. Aclimatando-se no Brasil, ganhou outras conotações: quem vai para o beleléu é porque fracassou; algo que se estraga também foi para o beleléu.
Na Bahia, usa-se em sentido mais drástico: mandar alguém para o beleléu é querer que vá para o inferno.
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terça-feira, 27 de julho de 2010
Como calcular a multidão?
Recebi essa mensagem de um leitor deste blog:
"Olá! Parabéns pelo blog, a ideia é ótima. Eu gostaria de saber o significado etimológico de 'multidão'. Obrigado! Paulo."
Paulo, "multidão" vem do latim multitudo, "grande número", com base no advérbio multus. A noção de que há uma abundância de seres (sejam moscas, bois ou pessoas) é o que se quer designar.
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
Dia dos Avós
Em latim, avus, "avô", o pai do pai, foi usado mais tarde no diminutivo, *aviolus. Daí veio abuelo, em espanhol. Em português, as formas "vovô" e "vovó" manifestam o carinho da família pelos mais velhos. O sentido original da palavra é "protetor" e "predileto". Os avós são uma segurança a mais para as crianças, e recebem de seus netos especial carinho.
No latim clássico, havia outro diminutivo, avunculus. Esse "avozinho" era o tio materno. O magnus avunculus era o irmão da avó. Daí veio oncle ("tio", em francês) e uncle (em inglês).
Hoje, Dia dos Avós. Um bom motivo para cantar em sua homenagem!
No latim clássico, havia outro diminutivo, avunculus. Esse "avozinho" era o tio materno. O magnus avunculus era o irmão da avó. Daí veio oncle ("tio", em francês) e uncle (em inglês).
Hoje, Dia dos Avós. Um bom motivo para cantar em sua homenagem!
domingo, 25 de julho de 2010
Nos tempos da Vila Talarico
Cris, leitora deste blog, pergunta qual a origem da palavra "talarico", em referência a um bairro da cidade de São Paulo chamado Vila Talarico.
A palavra corresponde a um sobrenome italiano. Giuseppe Talarico, descendente de mestres de obras da Itália, chegou ao Brasil no século XIX e atuou como construtor na cidade de São Paulo. É lembrado como um dos responsáveis pela criação do bairro que levou o seu nome — justa homenagem.
Giuseppe foi pai do político José Gomes Talarico, que conta um pouco dessa história numa entrevista ao Projeto Memória do Movimento Estudantil, em 2004:
"Meu pai foi um grande construtor em São Paulo, que introduziu o cimento armado com vigas de aço e ferro. Foi também quem introduziu o estuque, que até então não era feito. Inclusive, no ano de 1925, ele adquiriu uma grande área em São Paulo, no subúrbio, além da Penha, Vila Matilde e Vila Esperança. Vocês devem conhecer esses subúrbios, porque a Escola de Samba Nenê da Vila Matilde é ali — daí a denominação: Vila Talarico." (cf. http://www.mme.org.br/)
O sobrenome Talarico provavelmente deriva do nome bárbaro "Atalarico", muito popular na Calábria sob o reinado ostrogodo.
Giuseppe foi pai do político José Gomes Talarico, que conta um pouco dessa história numa entrevista ao Projeto Memória do Movimento Estudantil, em 2004:
"Meu pai foi um grande construtor em São Paulo, que introduziu o cimento armado com vigas de aço e ferro. Foi também quem introduziu o estuque, que até então não era feito. Inclusive, no ano de 1925, ele adquiriu uma grande área em São Paulo, no subúrbio, além da Penha, Vila Matilde e Vila Esperança. Vocês devem conhecer esses subúrbios, porque a Escola de Samba Nenê da Vila Matilde é ali — daí a denominação: Vila Talarico." (cf. http://www.mme.org.br/)
O sobrenome Talarico provavelmente deriva do nome bárbaro "Atalarico", muito popular na Calábria sob o reinado ostrogodo.
sábado, 24 de julho de 2010
Qual é a da qualidade?
Amanda, leitora deste blog, quer saber a origem da palavra "qualidade". Procede do latim qualitatem, termo criado por Cícero quando traduzia Platão. A base é o pronome qualis, "de que natureza". Tem a ver com a pergunta "qual?".
A qualidade, filosoficamente falando, nos remete às características e propriedades de uma realidade: disposições, capacidades, incapacidades, formas etc.
A noção de "qualidade de vida" surgiu na década de 1940, quando o mundo sofria com uma segunda guerra mundial. Já na década de 1930, passou-se a usar a expressão "controle de qualidade".
A qualidade, filosoficamente falando, nos remete às características e propriedades de uma realidade: disposições, capacidades, incapacidades, formas etc.
A noção de "qualidade de vida" surgiu na década de 1940, quando o mundo sofria com uma segunda guerra mundial. Já na década de 1930, passou-se a usar a expressão "controle de qualidade".
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quinta-feira, 22 de julho de 2010
Ter e vencer o medo
Livros que nos ajudem a vencer o medo de existir e outros medos. Como este, de Luc Ferry, Vencer os medos (WMF Martins Fontes, 2008).
Mas de onde vêm o medo e a palavra "medo"?
Do latim metus, que estava relacionado ao verbo metuere ("ter medo"). Este medo, para os antigos, associava-se ao temor religioso e ao entusiasmo poético.
Em ambos os casos, um temor, um receio de entrar em contato com algo formidável, transcendente, que levava ao êxtase. Não se tratava de covardia ou de natural apreensão diante do perigo, mas de um sentimento em que se misturavam perplexidade, inquietação, admiração, euforia perante algo grandioso, sobre o qual não se tem controle.
Mas de onde vêm o medo e a palavra "medo"?
Do latim metus, que estava relacionado ao verbo metuere ("ter medo"). Este medo, para os antigos, associava-se ao temor religioso e ao entusiasmo poético.
Em ambos os casos, um temor, um receio de entrar em contato com algo formidável, transcendente, que levava ao êxtase. Não se tratava de covardia ou de natural apreensão diante do perigo, mas de um sentimento em que se misturavam perplexidade, inquietação, admiração, euforia perante algo grandioso, sobre o qual não se tem controle.
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segunda-feira, 19 de julho de 2010
De onde vêm os monstros?
O filme Onde vivem os monstros (2009) encena as carências, os ciúmes, as raivas, os medos e o amor que tornam tão delicado e difícil viver e conviver. Somos seres solitários e amáveis, incompreensíveis.
A palavra "monstro" provém do latim monstrum, significando "portento", "sinal profético". O monstruoso demonstra algo. É uma advertência (tem a ver com o verbo latino monere), seja da parte do bem ou do mal.
Esta amplitude se perdeu. Os monstros são vistos apenas como realidades anormais, deformadas, estranhas, ameaçadoras. Perdeu-se (e a etimologia nos faz lembrar) o caráter sagrado dos monstros...
Esta amplitude se perdeu. Os monstros são vistos apenas como realidades anormais, deformadas, estranhas, ameaçadoras. Perdeu-se (e a etimologia nos faz lembrar) o caráter sagrado dos monstros...
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domingo, 18 de julho de 2010
Cavanhaque unânime
E já que falamos em bigode, de onde vem "cavanhaque"? Aqui não há controvérsia. Os etimólogos são unânimes: devemos a palavra ao modelo de barba que o general francês Louis Eugène Cavaignac (1802-1857) gostava de usar.O ilustre militar foi governador-geral da Argélia e ministro da guerra na França. E o termo que deu origem ao sobrenome, cavaignac, significava "lugar cavado", "buraco".
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sábado, 17 de julho de 2010
O que veio primeiro, o bigode ou a bigorna?
Perguntaram-me qual a origem de duas palavras próximas dentro do dicionário, mas de histórias certamente distantes entre si: "bigode" e "bigorna".
"Bigorna" remete ao latim bicornia, plural de bicorne, o que tem "duas pontas" ou "dois chifres", pois a peça de ferro sobre a qual se forjam metais tem esse formato.
"Bigorna" remete ao latim bicornia, plural de bicorne, o que tem "duas pontas" ou "dois chifres", pois a peça de ferro sobre a qual se forjam metais tem esse formato.
Já "bigode", vários autores admitem, mesmo não se tendo absoluta certeza, que veio do espanhol bigote, e este da antiga expressão germânica "bî Got", "por Deus". Os espanhóis possivelmente associavam a exclamação aos bigodudos alemães. Mais tarde, a palavra designaria os pelos faciais localizados entre o nariz e o lábio superior de qualquer ser humano.
Outra hipótese é que "bigode" foi precedida por bigoth, e antes ainda pela palavra vigoth, do latim medieval, para designar indivíduo do povo visigodo, que ocupou a Península Ibérica, entre os séculos V e VIII. A palavra teria passado a significar essa parte da barba que os visigodos cultivavam, como se vê na imagem abaixo, do rei Alarico II.
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terça-feira, 13 de julho de 2010
As pegadas do chato de galocha
Meu amigo de leituras e preocupações pedagógicas, Prof. João Paulo me perguntou sobre a origem da expressão "chato de galocha", aquele indivíduo inconveniente e maçante, hoje em dia conhecido como "mala sem alça".
A palavra "galocha" é tradução do francês galoche, calçado de borracha que se usa sobre outro para protegê-lo da umidade, da chuva, da lama. Provém, segundo alguns estudiosos, do latim gallica, calçado usado pelos gauleses.
Outros preferem referir-se ao latim medieval calopedia, correspondente ao grego kalopous, espécie de sapato com sola de madeira para proteger os pés da umidade.

Quanto à expressão "chato de galocha", imagino que seja aquela pessoa que, mesmo num dia de chuva, põe a galocha e vem exercitar sua "chatura". No Tratado geral dos chatos, de Guilherme Figueiredo, obra que se encontra esgotada (todos os chatos a compraram!), os chatos estão identificados, catalogados e classificados em detalhe. O chato de galocha é o chato pra chuchu que saiu do mundo agrário e ingressou na era industrial.
Neste livro há uma viagem etimológica em torno da palavra "chato", explicando que o termo grego platus designava o "importuno", o "aborrecido" — Platão já entrava na categoria dos chatos filosóficos...

A palavra "galocha" é tradução do francês galoche, calçado de borracha que se usa sobre outro para protegê-lo da umidade, da chuva, da lama. Provém, segundo alguns estudiosos, do latim gallica, calçado usado pelos gauleses.
Outros preferem referir-se ao latim medieval calopedia, correspondente ao grego kalopous, espécie de sapato com sola de madeira para proteger os pés da umidade.

Quanto à expressão "chato de galocha", imagino que seja aquela pessoa que, mesmo num dia de chuva, põe a galocha e vem exercitar sua "chatura". No Tratado geral dos chatos, de Guilherme Figueiredo, obra que se encontra esgotada (todos os chatos a compraram!), os chatos estão identificados, catalogados e classificados em detalhe. O chato de galocha é o chato pra chuchu que saiu do mundo agrário e ingressou na era industrial.
Neste livro há uma viagem etimológica em torno da palavra "chato", explicando que o termo grego platus designava o "importuno", o "aborrecido" — Platão já entrava na categoria dos chatos filosóficos...
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domingo, 11 de julho de 2010
Laranja ingênua... ou não
Uma visitante-leitora deste blog, Maria Lídia, fez uma pergunta pelo formspring — quer saber qual a origem da palavra "laranja", no sentido de falsário que permite o uso de seu nome para a prática de fraudes financeiras e comerciais.
A palavra, originariamente, vem do persa narang, derivado do sânscrito naranga. O sentido figurado de "testa de ferro" ou de "inocente útil" surgiu na década de 1970. Entre várias versões explicativas, duas delas são:- tal como acontece com a fruta, do tolo laranja sugam e extraem tudo: fica só o bagaço.
- em países em que se proibia o consumo de álcool em público, injetava-se bebida em laranjas para iludir a fiscalização. O laranja é quem esconde os verdadeiros culpados.
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sexta-feira, 9 de julho de 2010
Valeu!
Meu amigo Elie Chadarevian perguntou-me qual a etimologia da palavra "valeu". Suponho que esteja pensando na expressão coloquial: "Valeu!"
Elie, o verbo "valer" provém do latim valere, "ser valente", "ter força". "Valoroso" é aquele que tem força, valor. Entre os romanos, usava-se o imperativo do verbo latino valere como despedida. Os romanos diziam vale para desejar saúde e vida longa aos amigos. Uma forma de dizer "adeus", desejando ao outro o melhor.
Hoje, entre nós, podemos empregar "valeu!" como exclamação agradecida — "Valeu, cara, nem sei como te agradecer!" —, ou como uma pergunta para saber se tudo correu bem (implícito o "valeu a pena").
Valeu?
Elie, o verbo "valer" provém do latim valere, "ser valente", "ter força". "Valoroso" é aquele que tem força, valor. Entre os romanos, usava-se o imperativo do verbo latino valere como despedida. Os romanos diziam vale para desejar saúde e vida longa aos amigos. Uma forma de dizer "adeus", desejando ao outro o melhor.
Hoje, entre nós, podemos empregar "valeu!" como exclamação agradecida — "Valeu, cara, nem sei como te agradecer!" —, ou como uma pergunta para saber se tudo correu bem (implícito o "valeu a pena").Valeu?
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quarta-feira, 7 de julho de 2010
Leitura arcaica
Etimologia é leitura arcaica. Por associação, lembro-me do livro Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Uma história de filho pródigo recontada. A relação com a terra, com o plantio, e a mentalidade patriarcal fortemente arraigada, e os anseios, e os medos e os silêncios, uma obra-prima.
A palavra "lavoura" remete à ideia de trabalho árduo, paciente. Lavrar, semear, colher são trabalhos laboriosos. No século XIII encontramos lauoria e laboira. Supõe-se que houve no latim vulgar o termo laboria, que teria partido do mais antigo labor, "sofrimento", "fadiga".
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terça-feira, 6 de julho de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Parabéns, Mia!
Hoje, aniversário do escritor moçambicano Mia Couto. Seus contos e romances têm uma linguagem que muito deve a Guimarães Rosa. Mas Mia tem estilo próprio, suas próprias "brincriações" verbais.
Seu primeiro romance, Terra sonâmbula, mostra o país maculado pela guerra, pelo sangue. O sonambulismo de uma terra sofrida em que ainda se busca poesia. Onde houver poetas haverá sobrevivência do humano. Mia faz proesia.A palavra "sonâmbulo" chegou-nos pelo francês somnambule — pessoa que anda e fala enquanto dorme. Remete ao latim somnus, "sono" + ambulus, do verbo ambulare, "andar".
sábado, 3 de julho de 2010
Derrota também faz parte do caminho
A derrota do time brasileiro, ontem, jogando contra a Holanda, entristeceu o país. Nas últimas 60 partidas da seleção, todas sob o comando do técnico Dunga, tivemos 42 vitórias, 12 empates e 6 derrotas. Perder durante a Copa do Mundo, porém, é fatal. E mais doloroso.

A palavra "derrota" vem do francês dérouter, que é "tirar (alguém) da rota", empurrar para fora do caminho, fazer o inimigo fugir em debandada. Derrotar uma tropa, um time ou uma pessoa é jogar esse adversário para escanteio!
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sexta-feira, 2 de julho de 2010
Dia do Bombeiro
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quinta-feira, 1 de julho de 2010
Agora é Holanda
Oficialmente, Holanda, a terra dos moinhos e das tulipas, não é o nome correto do país contra o qual o Brasil vai jogar amanhã, em etapa decisiva da Copa do Mundo. Deveria ser, talvez, Neerlândia, ou Nederlândia. Constitui a maior parte dos Países Baixos, em que se incluem Bélgica e Luxemburgo. Trata-se do famoso Benelux (reunindo, em inglês, "BElgium", "NEtherlands" e "LUXembourg").
A rigor, teríamos de chamar Holanda de Países Baixos, traduzindo o nome do país em neerlandês: Nederlanden (Neder, "baixo" + Landen, "país"). Os Países Baixos assim se chamam porque um quarto do seu território encontra-se abaixo do nível do mar.
O nome "Holanda" corresponde a duas províncias das que compõem o país. Há a Holanda do Sul (a capital é Haia e a principal cidade é Rotterdam, onde nasceu Erasmo, autor de O elogio da loucura) e Holanda do Norte, cuja cidade mais importante é Amsterdã, capital do país."Holanda" pode ter vindo de Holt-Land, "terra das madeiras", porque a região teria sido um dia coberta de árvores. Outra possibilidade é que remeta a Hol-Land, em que Hol, "buraco", "baixo", em neerlandês, levaria de novo ao significado original de "terra funda" ou "terra baixa".
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quarta-feira, 30 de junho de 2010
Nada de nada
A palavra "nada" não é nada simples. Provém de uma expressão latina medieval, "rem natam non fecit", "não fiz nada", em que o nada que não se fez no fundo seria alguma coisa...
Nada é uma "res nata", uma coisa nascida, uma coisa que aconteceu, que veio do nada e continua sendo um quase nada.
Para captar o nada, um vídeo da autoria de Ana Lasevicius, a partir da poesia de Manoel de Barros.
Nada é uma "res nata", uma coisa nascida, uma coisa que aconteceu, que veio do nada e continua sendo um quase nada.
Para captar o nada, um vídeo da autoria de Ana Lasevicius, a partir da poesia de Manoel de Barros.
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terça-feira, 29 de junho de 2010
Idiota: xingamento ou elogio?
Comecei a reler, depois de duas décadas, O idiota, de Dostoiévski. O personagem é fascinante. Um autêntico idiota. Lembrando que a palavra remete ao grego idiotés, "indivíduo particular", do povo, em oposição ao aristrocrata, ser "superior" ao idiota, pois, ao contrário deste, encontra-se integrado a um grupo de elite.
Em grego, idios é "pessoal", algo que é próprio de alguém. "Idioma", por exemplo, é a língua própria de um povo. Em medicina, fala-se em "idiopatia", uma afecção que não decorre de outras, que existe por si só.
O idiota, portanto, é aquele que possui uma marca pessoal, que nasce a partir de si mesmo. Detém uma originalidade. É genuíno. Possui lá as suas idiossincrasias, suas características comportamentais peculiares.
Há muito de solidão e liberdade, beleza e dor num idiota. Por isso, talvez, ninguém goste de idiotices...
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domingo, 27 de junho de 2010
Para enfrentar o Chile
Prosseguindo as pesquisas futelinguísticas, em espírito de Copa do Mundo, chegou a hora do Chile, adversário com que jogaremos amanhã.
Não faltam versões sobre a origem da palavra "Chile".
Uma delas é do cronista espanhol do século XVIII, Diego de Rosales, segundo o qual existira no passado um chefe da região chamado Tili, e este nome passou a designar o próprio território. De Tili chegamos a Chile.
Outra teoria afirma que a explicação está na semelhança entre o vale do Aconcágua e o vale do Casma, no Peru. O nome de uma cidade peruana, Chili, daquela localidade viajou para o sul.
Há quem defenda outra teoria. Que "Chile" teria derivado de chilli, palavra do araucano (língua ameríndia), que significava "confins do mundo".
Outra teoria remete a cheele-cheele, som que imitaria, em araucano, o canto de um pássaro da região.
Mais uma teoria (ou lenda?). Haveria entre os antigos habitantes uma palavra para designar uma espécie de raposa — chilla.
Um país que dribla os etimólogos!
Não faltam versões sobre a origem da palavra "Chile".
Uma delas é do cronista espanhol do século XVIII, Diego de Rosales, segundo o qual existira no passado um chefe da região chamado Tili, e este nome passou a designar o próprio território. De Tili chegamos a Chile.
Outra teoria afirma que a explicação está na semelhança entre o vale do Aconcágua e o vale do Casma, no Peru. O nome de uma cidade peruana, Chili, daquela localidade viajou para o sul.
Há quem defenda outra teoria. Que "Chile" teria derivado de chilli, palavra do araucano (língua ameríndia), que significava "confins do mundo".
Outra teoria remete a cheele-cheele, som que imitaria, em araucano, o canto de um pássaro da região.
Mais uma teoria (ou lenda?). Haveria entre os antigos habitantes uma palavra para designar uma espécie de raposa — chilla.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
Em que porto encontramos Portugal?
Hoje, Brasil e Portugal na Copa do Mundo. O registro mais antigo da palavra encontra-se num texto do século XI. Naquela altura, havia o condado de Portus Cale, que acabou substituindo o antigo nome latino com que se designava a região: Lusitania.
Este porto da cidade de Cale refere-se à palavra cale, "abrigo", de origem celta, que gerou outros dois topônimos: "Calábria" (Itália) e "Calais" (França).
Há quem defenda que Portus Cale é formado pelo latim portus, "porto", em associação ao grego kalós, "belo". Será belo o porto, em referência à cidade do Porto. O porto por excelência. Mas nada garante a veracidade dessa explicação etimológica. É uma bela fantasia... verdade geográfica e orgulho do povo lusitano!
sábado, 19 de junho de 2010
Agora é Costa do Marfim
Amanhã, pela Copa do Mundo, jogam Brasil e Costa do Marfim. A palavra "costa" provém do latim costa, "lado", mas também "costela". Estará o pais localizado numa das costelas do continente africano?
E "marfim" vem do árabe Hazm al-fíl, "osso do elefante", palavra que era escrita em língua portuguesa, no século XIV, de duas formas pelo menos: "almafi" e "marfil".
Sem pessimismo, mas falando apenas do ponto de vista etimológico, o jogo amanhã vai ser osso duro de roer... e dos grandes!
Sem pessimismo, mas falando apenas do ponto de vista etimológico, o jogo amanhã vai ser osso duro de roer... e dos grandes!
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terça-feira, 15 de junho de 2010
Palavras e origens em podcast
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Este programa, concebido e produzido por minha esposa, Ana Lasevicius, está disponível aqui e no site da Rádio Brasil MPB.
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De onde vem a Coreia?
Hoje, primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2010. Seu adversário é a Coreia do Norte. E de onde vem "Coreia"?
No século X, o líder guerreiro e político Wang Kong fundou a dinastia Koryo (que reinou de 918 a 1392), com autonomia perante a China, e inspirada pelos preceitos budistas e confucionistas.
A palavra era proveniente de uma tradição. Sendo província chinesa, muitos dos seus habitantes desejavam a soberania. Antes de Wang Kong, um líder da tribo dos Ut-Su, que vivia entre as montanhas e o mar, fundara o reino de Korai, no século II.
No século X, o líder guerreiro e político Wang Kong fundou a dinastia Koryo (que reinou de 918 a 1392), com autonomia perante a China, e inspirada pelos preceitos budistas e confucionistas.
A palavra era proveniente de uma tradição. Sendo província chinesa, muitos dos seus habitantes desejavam a soberania. Antes de Wang Kong, um líder da tribo dos Ut-Su, que vivia entre as montanhas e o mar, fundara o reino de Korai, no século II.
Entre as versões existentes para o significado da palavra, destacam-se "grande e belo" e "alto e claro", em referência às altas montanhas e ao céu claro, símbolos da liberdade.
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segunda-feira, 14 de junho de 2010
Cardeais e cardinais
Cardeais e cardinais, as duas formas provêm do latim cardinalis, isto é, "principal", "essencial", em referência ao latim cardo, "dobradiça", "eixo", fundamental para uma porta ou uma máquina.
Os cardeais, que elegem o papa na Igreja católica, são chamados assim porque eram denominados antes episcopi cardinalis, ou seja, "bispos principais", pois eram os mais próximos de Roma.
E os números cardinais expressam quantidades absolutas, tidos como mais importantes, em comparação com os ordinais, multiplicativos e distributivos.
E os números cardinais expressam quantidades absolutas, tidos como mais importantes, em comparação com os ordinais, multiplicativos e distributivos.
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domingo, 13 de junho de 2010
Um intervalo para a interjeição!
Um visitante deste blog, Marcos, do Rio de Janeiro, perguntou de onde vem a palavra "interrogação". Provém do latim interjectio, "algo que se interpõe", "algo que é inserido entre duas coisas". O verbo latino intericere é formado por inter ("entre") e icere, que remete a jacere, "lançar".
A interjeição é algo que surge no meio da frase, um "ah!", um "oh!", para expressar alegria, admiração, consternação e outros sentimentos.
A interjeição é algo que surge no meio da frase, um "ah!", um "oh!", para expressar alegria, admiração, consternação e outros sentimentos.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Uma flor no campo...
Futebol é tema de todos os dias. A proximidade de mais uma Copa do Mundo faz as palavras relacionadas ao tema ganharem espaço redobrado.
A palavra "firula", entre muitas. Firula é aquela jogada bonita, mas sem objetivo prático. Fazer firula é "fazer bonito", é demonstrar virtuosismo com a bola... e mais nada.
Antes mesmo de pisar em campo, esta palavra já designava, em outras áreas, "floreio", "rodeio", "adornos retóricos", com o sentido de algo que fica só nisso. Provém de *felorete, que por sua vez nasceu de felor, do galego-português (Idade Média, a partir do século VIII), "flor". Antes, em latim, flos, floris.
As firulas são as pequenas flores, as florzinhas que, no discurso ou na hora do jogo, encantam a torcida, mas podem fenecer subitamente, deixando a todos com fome de gol.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Ver TV
Jackson, de Porto Alegre, perguntou a este blog a origem etimológica do verbo "assistir", no sentido de "ver" e "ouvir", como na frase "assisto à TV".
O verbo "assistir" remete ao latim adsistire, "parar", "estar presente". "sentar-se perto". Assistir alguém é acompanhar e, como sinal de presença ativa, prestar ajuda, se for necessário.
Assistir à TV, no entanto, é um estar presente passivo, em que basta olhar e acompanhar a sucessão de imagens.
O verbo "assistir" remete ao latim adsistire, "parar", "estar presente". "sentar-se perto". Assistir alguém é acompanhar e, como sinal de presença ativa, prestar ajuda, se for necessário.
Assistir à TV, no entanto, é um estar presente passivo, em que basta olhar e acompanhar a sucessão de imagens.
sábado, 5 de junho de 2010
A etimologia das eleições
Perguntaram-me a origem da palavra "eleições". Vem do latim, electìo, que significa "escolha". Eleger é escolher. Mas não uma escolha qualquer.
O electus, o escolhido, tem excelência, ou espera-se que tenha sido escolhido em razão de suas qualidades e para dar mostras dessas qualidades. Nas próximas eleições presidenciais, o povo brasileiro mais uma vez será chamado a escolher. Há quem diga que, diante das opções oferecidas, prefere não escolher.
Sabemos, contudo, que não escolher consiste em fazer uma escolha indireta. Não escolher, de fato, é um voto direto! Não querer eleger é contribuir para que alguém se eleja.
O electus, o escolhido, tem excelência, ou espera-se que tenha sido escolhido em razão de suas qualidades e para dar mostras dessas qualidades. Nas próximas eleições presidenciais, o povo brasileiro mais uma vez será chamado a escolher. Há quem diga que, diante das opções oferecidas, prefere não escolher.
Sabemos, contudo, que não escolher consiste em fazer uma escolha indireta. Não escolher, de fato, é um voto direto! Não querer eleger é contribuir para que alguém se eleja.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Cara e crachá!
Muito comum ver durante a semana, em plena rua, pessoas com seu cartão de identidade funcional pendurado ao peito. Ostentar o crachá lhes confere a certeza de que, mesmo depois do expediente, ou na hora do almoço, pertencem a uma empresa, a um grupo organizado.Provém do francês crachat, cujo primeiro significado é "escarrada", "cusparada". Por antífrase (uso da palavra em sentido contrário), associou-se o termo a "condecoração" e "medalha".
O sarcasmo (fruto da inveja?) está em que aquilo que deveria ser motivo de orgulho (modernamente, o crachá como homenagem da empresa ao funcionário) tem a ver com algum tipo de escracho. Embora eu já tenha ouvido gente dizendo que escrachado é quem esqueceu o crachá...
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quarta-feira, 2 de junho de 2010
Nietzsche gestor
E de onde vem a palavra "sucesso"? No latim successus, tínhamos já a noção de "bom resultado", mas há também o sentido daquilo que simplesmente vem depois, substituindo algo anterior. No verbo succedere, com sub ("depois de") + cedere ("vir", "mover"), observamos esse fato. Suceder como um vir depois. A noite sucede ao dia. E o sucessor é tão somente quem sucede a. Por exemplo, o herdeiro é sucessor. Em latim, havia a expressão successor amor, "um novo amor".Hoje parece que todo sucesso é positivo. Em outros tempos, podendo haver um mau sucesso, desejava-se a alguém "bom sucesso"! Há um município mineiro chamado Bom Sucesso, um bairro no Rio de Janeiro, Bonsucesso, e o time carioca Bonsucesso Futebol Clube.
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